Eu nunca vou entender esses sentimentos antagônicos que você me faz sentir, meu filho. Quanto amor e frustração, emoções que caminham juntas nesta experiência chamada maternidade. Enquanto escrevo meus olhos lacrimejantes e garganta cerrada me impulsionam na escolha das palavras certas.
Eu mudei minha vida por você, e me transformei para que você pudesse ter um lugar neste mundo e fosse bem recebido, me choquei quando você saiu de mim e ao berros me mostrou que a partir daquele momento eu estaria sempre em segundo lugar (para mim mesma). E contra este segundo lugar eu luto bravamente todos os dias.
Por que eu não posso dormir um pouco mais nos finais de semana, ou ver um filme na TV quando tenho vontade? Abri mão do meu corpo por 9 meses para te dar vida, e da minha vida toda para cuidar de você e te ver crescer. Abro mão inclusive do tempo que poderíamos ter juntos para trabalhar mais e te prover de luxos que eu não tive.
Por que você não pode me conceder o direito, o desejo de festejarmos juntos? Por que tem que ser sempre do seu jeito?
Filhos são egoístas até que se tornam pais.
E mesmo que cada uma destas coisas sejam feitas com imenso amor, tem dias, como hoje, quando a reciprocidade ainda não estabeleceu entre nós, que dói muito. E este amor dá lugar a uma frustração, uma decepção, e repenso minhas escolhas. E choro porque lembro de, no lugar de filha, ter agido de forma semelhante com minha mãe, e penso na dor que infligi a ela e que nunca soube.
Hoje estou muito triste, porque amo meu filho e escolheria ele para sempre, mas queria estar em outra lugar. Estou me sentindo um animal enjaulado, acostumado a seu cativeiro, despossuído de direitos, sem ter aonde ir.
Quando poderei deixar de estar em segundo lugar sem que isso o prejudique ou a mim? Deveríamos estar vivendo em uníssono mas estamos em times diferentes. Não posso dar aquilo que não tenho.
Quero retomar o meu primeiro lugar, sem deixar de doar e amar, Como conciliar estes sentimentos? Você tem a resposta, meu filho? Quem sabe um dia. Por hoje, deixo a dor inundar meu corpo e escorrer por meus olhos até que possamos estar juntos novamente em alegria.