Como tudo começou?

Enquanto revia vídeos e fotografias do meu pequeno de 4 anos (hoje com 7), que teima em crescer mais rápido do que eu consigo acompanhar, aproveitei para reler os diários que fiz desde a gravidez aos dias de hoje sobre cada momento (que julguei importante, essa ideia eu tive com a minha sogra que até hoje guarda escritos sobre fofurices do meu marido quando criança) registrado para que as trapaças da memória não as apagassem.


Foi neste caminho de reviver o passado que me descobri saudosa e percebi que precisava compartilhar as lembranças antes que esmaecessem sob a luz do dia a dia. Então, resolvi que postaria para amigos, familiares e outros curiosos do mundo pedaços desta minha vida, e ainda de lambuja deixar para o meu pimpolho histórias sobre ele mesmo para que um dia leia e sinta como foi esta jornada de chegar ao mundo e traçar seus próprios caminhos.


Espero que gostem e se emocionem um pouco, assim como eu ao revisitar minha história, e se entusiasmem para fazer uma visita à história de vocês.
Sejam bem vindos às "histórias sobre meu filho".

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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Identidades invisíveis

Miguel voltou das férias no final de semana, muito feliz em reencontrar os pais. Tocou a campainha da porta com um sorriso nos lábios. Do outro lado, o pai, ansioso por um abraço, abriu com a mesma alegria. Eis a surpresa quando Miguel percebeu que seu pai estava careca. Ele deu meia volta e saiu pelo corredor, quando o alcancei ele iniciou um choro sentido.

Não, o pai não estava careca porque qualquer motivo de saúde, era apenas um novo estilo que estava experimentando. E que na verdade achei muito charmoso...

Lembrei-me de uma vez quando pequena e meus pais ainda eram casados, um dia voltando da escola cheguei em casa e não reconheci meu pai. Ele sempre usava uma barba densa e cheia, pra mim era sua marca registrada, e de repente ele estava careca de barba, cara limpa! Eu chorei. Não o reconheci, não identifiquei meu pai naquele homem a minha frente.

Foi o que aconteceu com o Miguel.

Os pelos corporais e faciais se tornaram identidade de quem somos, nos conferem um rosto e geram no outro expectativas diversas sobre quem é como somos. As tatuagens fazem o mesmo efeito, assim como brincos, piercings, etc. Marcas de identidade.

De repente o pai não é mais o pai, mas um outro ser estranho, diverso, único. A pergunta feita pelo meu filho foi se o cabelo iria crescer, seguida da promessa de que nunca mais o país fizesse "aquilo".

Mas na verdade "aquilo" não faz dele menos pai, marido ou filho.  Não nos diz respeito as escolhas individuais. Por que então elas nos incomodam tanto? Ok é fácil entender a reação das crianças mas é os demais, os adultos?

Nossas identidades estão mais fluídas e menos enrijecidas. E isso assusta, não poder mais nomear e classificar as pessoas pelo que são ou deixam de ser traz um desconforto. É necessário categorizar e enquadrar numa escala qualquer de valores para que possamos compreender o outro. Foi assim que nos ensinaram na escola.

Mas o mundo da voltas e as percepções mudam. Hoje somos quem queremos ser, "somos quem podemos ser", e as possibilidades de ser são ilimitadas e infinitas. As identidades são invisíveis a olho nu.

A lição nesta história é o respeito à individualidade, o amor acima da expectativa. E esta é uma lição de vivemos todos os dias.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tal pai, tal filho

Miguel hoje.

- Vovucha, qual é mesmo a profissão dos meus pais?
- Seu pai é antropólogo e sua mãe cientista social que trabalha com projetos.
- Vou ser antropólogo igual ao meu pai!

domingo, 29 de janeiro de 2017

O retorno


Então o filho retorna de 20 dias de férias na casa da avó. 

E, duas noites seguidas, acorda o pai e vai dormir na minha cama. :( 

Falta muito para as férias de julho?

Resultado de imagem para Pai e filho dormindo

domingo, 22 de janeiro de 2017

Reflexão paterna

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Neste flagrante, percebemos nitidamente que Miguel reflete, com certa culpa, sobre o abandono voluntário de praticamente três semanas imposto ao pai, a quem lhe deve a vida. 

Pode deixar, mermão, na volta não adianta vir com chamego, não.

*Contribuição do papai.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Victorio's Secret


Se houvesse um Victorio's Secret, sem dúvida o moleque estaria entre os modelos mais requisitados. 

Sente o olhar penetrante. 


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Já falei aqui, mas vale repetir ad nauseam: vai ser bonito assim na casa do chapéu. Com todo o respeito.

* Contribuição do pai.

domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos pais

E mais uma vez é dia dos pais. 

Este ano Miguel bolou uma serie de fofuras para o pai. Começou pintando uma caneca de cerâmica com desenhos "miguelestes" (parecia rupestre mas era só o Miguel desenhando mesmo), em seguida o ensaio do café da manhã na cama para o pai. 

Sim, teve ensaio, eu precisei levar café numa quinta-feira, com direito a panqueca feita na hora. Aff...

E chegou o grande dia. Mi só queria estar com  o pai, nada demais. Depois de um café delicioso na cama, saíram para andar de skate e curtir o dia. Tudo maravilhoso, o dia estava muito bom.

Lembramos do primeiro dia dos pais quando o Mi era bebê. Também fomos ao Aterro e eles ficaram se curtindo. 

Enquanto relembrávamos o primeiro dia, achei no fundo do armário uma camiseta que o pai usou e que combinava com o body de bebê do Miguel. Por coincidência, Miguel ganhou a camisa com a mesma estampa em seu aniversário. Resolvemos reencenar a foto de 2009, e aí está ela.


Feliz Dia dos pais!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconstruindo Miguel

Quando trouxemos Miguel da maternidade e os avós deram no pé assim que o pirralho começou a chorar e mijar, percebemos a enrascada em que havíamos nos metido. Noites em claro, choro sem motivo (será?), peito o tempo todo, Renata com olhos perdidos no infinito, instintos materno e paterno o escambau. Amor incondicional? Pois sim... Ausência de diálogo, sem esse papo de que o olhar diz muito, diz tudo. A palavra e a fala é que nos faz humanos, elas nos permitam compartilhar sentimentos, a forma como experimentamos o mundo, como o interpretamos. Quem não se comunica se trumbica. Miguel não era humano? Não chegaria a tanto, só sei que, numa madrugada, Renata pediu arrego e ligou pra mãe implorando socorro porque não conseguia fazer Miguel parar de chorar e um vulto no andar de cima ficava espiando para tentar descobrir de onde vinha o barulho desesperante. Primeira e única vez, marcante pra sempre.

Aos poucos, Miguel foi se humanizando. É incrível quando, caminhando na rua, você ouve seu filho ler, pela primeira vez, o letreiro de uma loja ou lê a página de um livro infantil pego na biblioteca da escola. No início, balbuciava alguns sons parecidos com palavras, depois palavras curtas inteiras e, de uma hora para outra, desembestou a falar, falar, falar e, hoje, não me deixa assistir em paz o noticiário da televisão porque o silêncio é um crime. A alfabetização lhe permite andar com os próprios pés, ler o mundo de seu jeito em diálogo com quem o circunda. Seu vocabulário faria corar de vergonha muito marmanjo com curso superior (“papai, eu estava me referindo a...”). É quando começa a fase dos “porquês” e não adianta responder “porque sim” porque “porque sim” não é resposta. E tome discussão e conflito e argumentação e contra-argumentação e cara amarrada porque, no final das contas, quem manda são os pais e se os pais dizem que não pode, não pode. Simples assim. Saudades do choro, que o peito alheio amainava...

Sentados à frente da televisão, assistimos desalentados os desdobramentos do massacre ocorrido numa casa de espetáculos de Paris. O repórter fala de terroristas e Miguel pergunta o que são terroristas. Explicamos que são pessoas ruins que causam terror, medo, dor naqueles que pensam diferente deles, geralmente matando. Ele pergunta se teve gente que conseguiu fugir antes de ser morta ou se conseguir se esconder dos alucinados.  Explicar o significado de uma palavra não parece tão complicado, pior é ter de ajudar a entender imagens que vê.

Certa vez, Miguel pergunta por que todos os bandidos são pretos (ou teria dito “negros”?). Perguntamos de onde ele tirou essa ideia, e ele responde que é o que vê na televisão. Temos que explicar que nem todo bandido é preto (ou seria “negro”?), que tem muito bandido de pele clara que não aparece no noticiário ou que, mesmo aparecendo no noticiário, não é apresentado como bandido.Sua percepção de que o crime ou o abandono tem a cor negra se repete quando, através da janela do táxi, vê um menino de rua cheirando cola. Renata me contou que, em outra oportunidade, Miguel disse que não gostaria de ter nascido preto porque os pretos são invisíveis. Socialmente invisíveis, acrescentaria eu, sem tirar sua sagacidade e perspicácia. Ele percebeu que, apesar de existirem fisicamente, indivíduos de pele escura, sobretudo aqueles que vagam pelas ruas do Rio de Janeiro, não existem para quem passa por eles, não são reconhecidos como parte da mesma sociedade, como um “outro significativo”.

Nosso dever é desconstruir estas percepções, ajuda-lo a reinterpreta-las, combater estereótipos, preconceitos, fundamentalismos de qualquer tipo. Dá trabalho, mas, se não fizermos nada, quem o fará? 

OBS: Este post é do papai para o Miguel.

domingo, 9 de agosto de 2015

Para o pai do meu filho

Para você que:

  • Acorda à noite e coloca o filho na cama; 
  • Come comida fria para dar o almoço dele primeiro; 
  • Vai ao cinema ver um filme que jamais veria para ver o sorriso na cara do pimpolho e promete repetir a sessão; 
  • Que ensina a brincar de escorrega/ bicicleta / skate/ pique esconde/ etc; 
  • É sempre o vilão nas brincadeiras de super heróis; sente saudades de quando o filho era bebe e se emociona; leva/busca o filho na escola; 
  • Fica rindo quando o filho te imita e resolve te dar bronca; 
  • Perde sua sobremesa porque o pequeno resolveu comer a dele e a sua; 
  • Vai levar/buscar nas festas mesmo preferindo estar em casa fazendo outra coisa; 
  • Viajou pra Disney mais de uma vez mesmo preferindo conhecer outros lugares porque a criança quer ver os personagens/princesas; 
  • Se estressa porque o filho não come direito; 
  • Que pensa que todo espirro será seguido de febre;
  • Morre de amores quando o filho gosta das mesmas coisas que você; 
  • Aceita que o filho torça para o time de futebol da mãe; 
  • Faz dever de casa com eles; 
  • Compra uma surpresa no mercado para eles quando volta do mercado; 
  • Fica de pé segurando eles dormindo durante uma festa ou evento enquanto sonha com a cerveja na bandeja do garçom; 
  • Se sente culpado porque queria fazer mais ou diferente; 
  • Você que é amigo dos amigos do seu filho para poder estar sempre próximo.

Enfim pra você mesmo que está lendo isso e todos os outros que se sentem da mesma forma... 
Feliz dia de hoje!!!!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Carta do papai para a vovucha

Depois do Miguel passar sua tradicional semana de férias na casa da vovucha, papai resolveu agradecer o carinho recebido. Compartilhamos:


Talvez eu não tivesse a necessidade de agradecê-la, mas não se trata de necessidade. Muitos casais têm filhos achando que os pais/avós estarão a postos para qualquer eventualidade ou pedido, coisa que nem eu nem mamãe pensamos em momento algum, desde o nascimento e antes mesmo do nascimento do Miguel. Preferimos manter uma independência que foi e é muito boa para nós, para mim principalmente, porque me obrigou a exercer uma responsabilidade e uma autonomia que eu nem sabia que tinha. Por outro lado, ao solicitar menos os avós ocorre um afastamento físico que é até natural. Nunca fomos muito de visitar vovucha, vovucho, vovô  e vovó , o oposto sendo verdade igualmente. Isto não significa que não haja amor nos relacionamentos. Talvez seja por isso que a intensidade de nossa relação, minha e da mãe, com o Miguel seja tão intensa. Estamos sempre juntos, fazemos as coisas juntos, os programas são quase sempre a três. Cansa, mas é gostoso. Ou melhor, é gostoso, mas cansa. E, talvez também por conta desta intensidade (dentre outros motivos que não cabem aqui), que eu tenha tanta dificuldade de deixar Miguel ir, cortar o cordão umbilical, deixar de me preocupar com ele.

É meio ridículo porque, ao mesmo tempo em que o deixo correr para lá e para cá, pular, dar cambalhota, andar de skate, bicicleta sem rodinha, patins, nadar sem bóia, subir no trepa-trepa, dentre outros esportes radicais, caminhar na calçada sem dar a mão, tenho a fantasia que, longe de mim, ele está em perigo. Não é nada pessoal, é importante deixar claro. Então, quando vocês foram para Cabo Frio, eu fiquei apreensivo porque é um ambiente novo para ele e para mim e o pior, sempre o pior vem na minha cabeça, pode acontecer. É claro que eu imaginava que uma viagem para um lugar diferente do cotidiano faria muito bem a ele a você também e que ambos se divertiriam muitíssimo, mas o medo é algo que vem e não temos controle. Estou trabalhando nisso, e aos poucos vou melhorando. Estou dizendo estas coisas todas porque acho que esta semana aí na Maison Pinto, pelas fotos que vi, deve ter sido uma das mais divertidas de toda a vida do netucho. Ele está cada vez maior e mais esperto, um doce, um amor, mas também está um endemoniado, dá um trabalho do cão, exige atenção o tempo todo, e isso cansa bastante. É gratificante chegar ao final de um dia repleto de atividades e perceber que ele dorme o sono dos justos, sonhando com tudo de bom que aproveitou, o picolé que chupou, o suco que tomou, o pastel que comeu, o filme que assistiu. Imagino como você deve estar precisando de uma boa noite de sono, e imagino que você consiga fazer idéia de como eu e a mãe, às vezes, também precisamos de um tempo do filhote, porque ninguém é de ferro. Veja a quantidade de cabelos brancos na minha cabeça, boa parte deles aparecida depois do dia cinco de junho de dois mil e nove.

Resumindo: olhando as fotos que você tirou dele, da felicidade genuína estampada no rosto, diferente daqueles outras fotos pasteurizadas que as pessoas publicam no Facebook, como se o mundo fosse um eterno mar de rosas, percebi o quanto Miguel curtiu esses dias e, mais do que isso, o quanto ele curte a avó materna. E isso me deixa muito feliz, porque não é toda criança que tem contato com os avós e, menos ainda, contato que descambe para a bagunça, uma cumplicidade de comportamento que faz parte do jogo, é super saudável e é o sonho de todo pai. Autoridade e afeto. Não baste ser avó, tem que participar (na medida do possível e que as dores permitam...).  

Por isso, obrigado !

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre macacos e pássaros


Hoje, pela manhã, eu e meu filho de cinco anos assistíamos ao noticiário na televisão. Na tela, aparece uma imagem em câmera lenta, permitindo aos espectadores decifrar o que uma torcedora da equipe Grêmio gritava em direção a um jogador da equipe do Santos. Meu filho perguntou o porquê da torcedora estar falando “devagar”, do que se tratava aquilo.

Por volta dos 43 minutos do segundo tempo, o jogo havia sido paralisado quando jogadores do Santos avisaram ao árbitro da partida, disputada em Porto Alegre, que o goleiro da equipe estava sendo vítima de racismo. Imagens da televisão flagraram uma torcedora (?) gritando a palavra “macaco”. Entrevistado, o goleiro Aranha afirmou que ouviu gritos de “negro fedido”, “seu preto” e “cambada de preto” e, após, um grupo de torcedores gremistas começou “a fazer barulho de macaco”. Inacreditavelmente, o juiz da partida mandou o jogo seguir.

Achei importante desenvolver o tema com meu filho. Expliquei que a torcedora (?) estava chamando um jogador adversário de “macaco” porque este jogador adversário tinha a pele escura, como os macacos, e que a intenção da torcedora (?) era dizer que o goleiro não era humano, e sim animal. E ser animal, neste caso, era pior do que ser humano. Disse a ele que isso é uma bobagem, que o jogador de pele escura não era pior do que ser humano coisíssima nenhuma, que a diferença na cor da pele não diz nada sobre a pessoa, se é legal ou chata (claro, tive que usar uma linguagem apropriada para uma criança de cinco anos).

Meu filho arremata meu argumento com o seguinte raciocínio: “ah, é que nem a gente que tem pele branca, que não é igual a um pássaro branquinho, não é?”. Vejam que a distinção que ele fez foi entre duas espécies da mesma cor, e não espécies de cor diferente. Ou seja, ele não diferenciou brancos e negros, e sim brancos humanos e brancos não humanos. Para ele, brancos e negros são gente, pássaros e macacos são animais.

O pequeno diálogo é a prova de que o racismo é aprendido, que o ódio não corre pelas veias, mas transmitido através da (des)educação, da desinformação e da desonestidade intelectual. Afinal, estudos recentes já demonstraram que, biologicamente, indivíduos com tons de pele muito distintas podem compartilhar mais de seu código genético do que indivíduos com tons de pele semelhantes ou “iguais” (como medir, não é mesmo?).  

Meu filho tem consciência da diferença da cor da pele que existe entre ele e seus colegas. Ele diz que a dele é “branca”, e a de um colega é “marrom”. Até aí, nada de mais, é apenas uma diferença que ele percebe objetivamente. A questão surge quando esta diferença objetiva adquire um significado, passa a representar algo que vai além da simples pigmentação; passa a simbolizar, por exemplo, de um lado, maior capacidade intelectual e, do outro, a estupidez próxima ao animalesco.


O mesmo acontece com os “olhos diferentes” que ele identifica nos imigrantes e descendentes de asiáticos (outra categoria construída que não dá conta das distinções entre povos e culturas daquele continente), apenas para chamar a minha atenção de uma conversa que ele teve no parquinho perto de casa, quando se aproximou dele e de um amigo um adulto de “olhos diferentes” e seu filho. São diferentes, não inferiores. Quem sabe compartilham gostos em comum? Ele vai descobrir aos poucos.

Meu filho provou como a educação, desde cedo, é importante para a construção de um mundo melhor, onde o respeito à diferença é um valor absoluto e a convivência é estimulada.

Ganhei meu dia. 

Comentário: Esse texto foi escrito pelo papai. Adoro ver o Miguel pelos olhos do pai, então compartilho com vocês. Também pode ser visto em : http://espacoacademico.wordpress.com/2014/08/30/sobre-macacos-e-passaros/

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Férias!!!

Aquela famosa cena de mulheres queimando sutiãs em praça pública, na década de 1960, representando a liberdade das amarras da opressão masculina, foi seguida por uma série de mudanças na relação entre os sexos ou, o que passou a ser política e academicamente correto, gêneros. Cada vez mais donas de seu corpo, escolhendo usá-lo como parque de diversões (seu e de outros) ou fábrica de laticínios, escolhendo entre a carreira profissional ou o papel integral de mãe ou equilibrando as duas funções, as mulheres deram seu grito de independência da claustrofobia familiar e do estereótipo da parideira ajudadas pelo surgimento do leite em pó, dos potes de papinha Nestlé, das pílulas anticoncepcionais, das creches em horário integral. E, para aquelas com um desejo incontido de ter filhos, a inseminação artificial substituiu a necessidade de um parceiro fisicamente presente para cumprir o papel que se espera dele, na visão dos antiquados: garanhão. A ciência praticamente relegou os homens a um apêndice da identidade feminina. Na verdade, houve uma redefinição de papéis, seja no interior da família nuclear e extensa, seja no mundo do trabalho. Décadas depois de iniciada esta revolução de costumes, as mudanças bateram à minha porta.

Pela primeira vez, nosso filho ficou um mês em casa nas férias de verão. Até então, frequentava a colônia de férias oferecida aos alunos do horário integral, mas, como decidimos mudá-lo de escola, e nesta nova escola não há atividades no mês de janeiro, ficamos rendidos, sem saber o que fazer. Nossa empregada doméstica (ou “secretária”, para os hipócritas de plantão), faz a visita anual à família no nordeste neste período. Combinamos com os avós que cada lado, materno e paterno, ficaria com Miguel por uma semana, na segunda quinzena do mês; na primeira, o pai, eu.

Tentei estabelecer uma rotina, facilitando a organização das atividades diárias, ajudado pelo calor inclemente que assola o Rio de Janeiro desde o final de 2013, com temperaturas passando facilmente os quarenta graus. Depois do café da manhã e de um pouco de desenho animado na televisão, por volta de nove, nove e meia da manhã, saíamos de casa rumo à piscina do condomínio de minha sogra, num dos ônibus que passam pelo Flamengo rumo à Gávea, parando religiosamente na padaria na esquina da rua para o abastecimento de bebidas, invariavelmente as mesmas (suco Ades de uva e Guaraviton). Sempre um dos primeiros a chegar à piscina, por volta de dez horas, ficávamos até próximo de meio-dia, período em que praticamente não saíamos na água, mais por insistência do Miguel, cuja energia parece inesgotável. A caminho de casa, ainda era coagido a comprar um brownie (ok, é o melhor brownie da cidade, apesar da facada de R$ 9), sob a falsa alegação de que era “para a mamãe”.

Chegando em casa, íamos direto para o banho. Banho tomado, Miguel, de cueca, corpo bronzeado, um autêntico “menino do Rio”, aguardava o pai preparar o almoço. Na verdade, preparar é um exagero. A caminho de casa, na volta da piscina, nos habituamos a parar num restaurante de comida caseira, saudável e saborosa (sim, é possível ser saudável e saboroso), onde levávamos sempre uma quentinha bem fornida de arroz integral, feijão vermelho ou carioquinha, peito de frango a milanesa (tá bom, menos saudável...) e legumes refogados. Na cozinha, meu trabalho era unicamente colocar um pouco de cada coisa no prato de gente grande e fazer o suco de caju ou abacaxi e chamar Miguel para a cozinha, onde o almoço passou a ser dado, vitória dos pais sobre a concorrência quase desleal dos filmes da Disney ou Dreamworks. Meia hora depois, era a minha vez de comer.

A parte da tarde era um desafio. O que fazer nestas tantas horas de ócio? Bom, por mim, seria ócio, mas com uma criança de quatro anos e meio em casa, ativa, tal palavra é uma blasfêmia. Antes das cinco e meia, seis horas da tarde, era insalubre estar fora de casa, a menos que fôssemos ao cinema ou ao shopping (na verdade, esta não era uma opção, odeio shoppings). Passamos muitas tardes destas duas semanas alternando várias atividades. Vimos os desenhos animados favoritos dele, normalmente mais de uma vez, ou uma vez, mas repetindo determinadas cenas várias vezes; lemos contos de fadas, procuramos objetos perdidos no livro dos piratas e no das Tartarugas Ninjas; jogamos futebol de botão e jogo da velha, que Miguel está cada vez melhor; jogamos jogos de cartas e desenhamos cenas bucólicas no quadro negro que ele tem disponível numa das paredes do quarto; brincamos de Bem contra o Mal, ele o Bem, eu o Mal, ele Luke Skywalker, eu Darth Vader; corremos pela casa brincando de pique-pega; fizemos corrida com os carrinhos do Hot Wheels. Miguel ainda é mal perdedor, precisa aprender que nem sempre terá os louros da vitória.

Da janela do meu quarto, vejo se já há um pouco de sombra na pracinha em frente ao nosso prédio e se o calor já está um pouco menos sufocante, se já há crianças brincando no balanço. Se sim, proponho ao Miguel descermos um pouco, sou sempre a favor de ficarmos o máximo de tempo ao ar livre. Raramente ouvi dele uma negativa, concordando em descer contanto que levasse consigo o skate e seus aparatos de segurança. Na pracinha, Miguel impressiona com seu equilíbrio em cima da prancha de madeira e já arrisca umas manobras radicais, pelo menos para sua faixa etária, acredito. Voltou para casa mais de uma vez com alguns arranhões, nada grave, faz parte do crescimento, antes autonomia, liberdade e vento na cara sem medo de ser feliz do que tolhimento, censura, excesso de zelo (diferente de falta de zelo, porque não somos pais irresponsáveis). Parte da programação vespertina: pipoca e mate com limão. Imundo, suado e feliz. Banho tomado, barriga forrada, pronto para receber o amor da mãe que chega de mais um dia de trabalho, exigindo carinho nas costas e nas pernas para embalar o sono, Miguel se prepara para dormir e recarregar as baterias para mais um dia de diversão.

Estava lendo outro dia o relato de um comediante sobre a experiência de ser pai. Num determinado momento, ele fala do “tempo-bebê”, conceito que explica a realidade ilusória para a qual parece que somos dragados neste momento de nossas vidas. Diz ele: “coisas que parecem estar levando uma hora, não estão. Certa vez fiquei tão orgulhoso por ter entretido meu filho com grande sucesso durante uma tarde inteira. Projetei e construí uma imensa fortaleza de bloquinhos, joguei uma partida disputada de ‘cadê-o-nariz-do-papai’ e narrei uma leitura comovente de Haroldo hipopótamo, para então olhar no relógio e descobrir que na verdade sete minutos tinham se passado”. Identifiquei-me integralmente com essa sensação porque, ao final do dia, depois de tanto brincar, tomamos consciência que foram apenas algumas horas de um dia foram preenchidas, e que no dia seguinte a partida começa do zero.

O roteiro descrito foi mais ou menos reproduzido ao longo das duas semanas em que estive a cargo do pequeno herdeiro, incluindo-se aí uma ida à praia Vermelha que normalmente está própria para o banho, mas que, naquele dia em particular, estava bastante suja (de lixo, não de esgoto), a areia e a água, frustrando nós dois. Também envolvi outros pais na mesma situação de “desamparo escolar”, recebendo o melhor amigo dele lá em casa pela hora do almoço e o devolvendo no final da tarde, dando uma folga para os seus pais.

Esse revezamento aconteceu duas vezes. Levei-os à “lojinha”, que é como eles chamam a locadora de DVDs, onde escolheram um dos desenhos do Scooby-Doo, e comprei o sorvete “de caixinha”, que os adultos conhecem como Eskibon, sorvete de creme coberto de chocolate que, nesta versão moderna, vem numa pequena caixa e em várias quadradinhos, facilitando a divisão e não melindrando nenhum dos interessados. Para provar, tenho fotos dos dois comendo civilizadamente o sorvete, sentados na mesa da sala, em menos de dez minutos. Brincaram a valer e, no final do dia, desceram para a pracinha em frente de casa.

Também com o mesmo melhor amigo, fui, com os pais dele, a uma exposição de dinossauros, num shopping center da zona norte da cidade. Fomos e voltamos de metrô e, apesar de o horário não ser de pico, o vagão foi enchendo e enchendo ao longo do percurso, o ar condicionado não conseguia dar vazão e, no final das contas, por incrível que pareça, estava mais fresco do lado de fora do que do lado de dentro. Isto num dia em que a sensação térmica no Rio de Janeiro deve ter se aproximado dos cinquenta graus. Para piorar, Miguel ficou com medo das réplicas (e olha que nem havíamos chegado ao Tiranossaurus Rex) e, cinco minutos depois de iniciada a visita guiada, tive de retirá-lo. Na volta, os dois vieram “tocando o terror” dentro do vagão, eu não sabendo onde enfiar a cara de vergonha. Mas o que Miguel curtiu mesmo neste passeio foi o cheeseburger com suco de uva do Bob’s...

Ao final das duas semanas, estava bastante cansado, embora feliz. Sabe quando a gente acaba de correr no calçadão, exausto, mas sentindo que o dever foi cumprido? É por aí. Era um misto de prazer por ter proporcionado ao meu filho momentos felizes e partilhado com ele estes momentos, simplesmente estar ao seu lado e saber que ele se sentia confortado e protegido, mas cansaço, menos físico que mental, é verdade, por conta da intensidade da relação concentrada em poucos dias.

Não ajudei minha esposa. Voltando ao início deste depoimento, digo que concordo com as transformações na relação entre homem e mulher, seja no espaço público ou no espaço doméstico. É ridículo pensar que o homem deve ser o único responsável pelo provimento da casa, e a mulher a responsável pela gestão doméstica; que o homem não precisa fazer a cama, lavar a louça, dar banho nos filhos, fazer as compras do mês ou levar os filhos ao médico; que a mulher não pode sair para tomar um chope com as amigas depois do trabalho. Eu fiz a minha obrigação. Sorte do Miguel, que tem pais tão modernos. Que venham as férias de 2015!

Comentário: Esse texto foi escrito pelo papai, cedi um espaço do blog para compartilhar mais esta aventura.