Como tudo começou?

Enquanto revia vídeos e fotografias do meu pequeno de 4 anos (hoje com 7), que teima em crescer mais rápido do que eu consigo acompanhar, aproveitei para reler os diários que fiz desde a gravidez aos dias de hoje sobre cada momento (que julguei importante, essa ideia eu tive com a minha sogra que até hoje guarda escritos sobre fofurices do meu marido quando criança) registrado para que as trapaças da memória não as apagassem.


Foi neste caminho de reviver o passado que me descobri saudosa e percebi que precisava compartilhar as lembranças antes que esmaecessem sob a luz do dia a dia. Então, resolvi que postaria para amigos, familiares e outros curiosos do mundo pedaços desta minha vida, e ainda de lambuja deixar para o meu pimpolho histórias sobre ele mesmo para que um dia leia e sinta como foi esta jornada de chegar ao mundo e traçar seus próprios caminhos.


Espero que gostem e se emocionem um pouco, assim como eu ao revisitar minha história, e se entusiasmem para fazer uma visita à história de vocês.
Sejam bem vindos às "histórias sobre meu filho".

Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Identidades invisíveis

Miguel voltou das férias no final de semana, muito feliz em reencontrar os pais. Tocou a campainha da porta com um sorriso nos lábios. Do outro lado, o pai, ansioso por um abraço, abriu com a mesma alegria. Eis a surpresa quando Miguel percebeu que seu pai estava careca. Ele deu meia volta e saiu pelo corredor, quando o alcancei ele iniciou um choro sentido.

Não, o pai não estava careca porque qualquer motivo de saúde, era apenas um novo estilo que estava experimentando. E que na verdade achei muito charmoso...

Lembrei-me de uma vez quando pequena e meus pais ainda eram casados, um dia voltando da escola cheguei em casa e não reconheci meu pai. Ele sempre usava uma barba densa e cheia, pra mim era sua marca registrada, e de repente ele estava careca de barba, cara limpa! Eu chorei. Não o reconheci, não identifiquei meu pai naquele homem a minha frente.

Foi o que aconteceu com o Miguel.

Os pelos corporais e faciais se tornaram identidade de quem somos, nos conferem um rosto e geram no outro expectativas diversas sobre quem é como somos. As tatuagens fazem o mesmo efeito, assim como brincos, piercings, etc. Marcas de identidade.

De repente o pai não é mais o pai, mas um outro ser estranho, diverso, único. A pergunta feita pelo meu filho foi se o cabelo iria crescer, seguida da promessa de que nunca mais o país fizesse "aquilo".

Mas na verdade "aquilo" não faz dele menos pai, marido ou filho.  Não nos diz respeito as escolhas individuais. Por que então elas nos incomodam tanto? Ok é fácil entender a reação das crianças mas é os demais, os adultos?

Nossas identidades estão mais fluídas e menos enrijecidas. E isso assusta, não poder mais nomear e classificar as pessoas pelo que são ou deixam de ser traz um desconforto. É necessário categorizar e enquadrar numa escala qualquer de valores para que possamos compreender o outro. Foi assim que nos ensinaram na escola.

Mas o mundo da voltas e as percepções mudam. Hoje somos quem queremos ser, "somos quem podemos ser", e as possibilidades de ser são ilimitadas e infinitas. As identidades são invisíveis a olho nu.

A lição nesta história é o respeito à individualidade, o amor acima da expectativa. E esta é uma lição de vivemos todos os dias.

domingo, 30 de julho de 2017

Liberdade para ser

Miguel trouxe um pote de Nutella da casa da avó. Enquanto fazíamos um lanche ele pergunta:
- Mamãe, por que você nunca compra Nutella?
- Porque ela contém óleo de palma, lembra?
Silêncio reflexivo...
- Mamãe, eu tenho que ser igual a você?
- Claro que não! A mamãe te explica as coisas e conta aquilo em quê ela acredita e você faz as suas escolhas.
- Ah, que bom.
E assim começa a liberdade de escolha.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tal pai, tal filho

Miguel hoje.

- Vovucha, qual é mesmo a profissão dos meus pais?
- Seu pai é antropólogo e sua mãe cientista social que trabalha com projetos.
- Vou ser antropólogo igual ao meu pai!

terça-feira, 16 de maio de 2017

Miguel e a autoestima

Poucos homens tiram o fôlego de minha esposa, tirante este escrevinhador, por suposto. Um deles é, sem dúvida alguma, Fitzwilliam Darcy, mais conhecido nos círculos femininos (e certos masculinos também, desconfio) como Mr. Darcy, o herói de “Orgulho e preconceito”, romance escrito por Jane Austen há mais de dois séculos. Charmoso e muito rico, ele é inicialmente rejeitado pela mocinha Elizabeth Bennet, que o crê arrogante e esnobe. Isso até descobrir que Mr. Darcy é generoso, corajoso e muito apaixonado.

Em 1995, a rede britânica BBC adaptou o romance para a televisão, escolhendo como intérprete de Mr. Darcy o ator inglês Colin Firth. Firth tornou-se sex symbol a partir daí, identificado com o personagem, sobretudo após a cena em que mergulha no lago e deixa transparecer a camisa branca molhada. Sim, o aristocrata fleumático é o homem que muitas mulheres (e homens, também desconfio) sonham para dividir a alcova, viril e sensível. Nada de metrossexual, nada de hipster da Federal. Coube a Mr. Darcy uma das mais famosas declarações de amor da literatura inglesa: “Em vão tenho lutado comigo mesmo, mas nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos; preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente”.

Pois bem. Ontem, a digníssima senhora me mostra um foto de Mr. Darcy/Colin Firth na tela do celular. Exclamo “Ah, Mr. Darcy!”, ao que Miguel pergunta de quem se tratava. Digo a ele que é um cara que a mamãe adora.

- É o homem mais bonito do mundo, ela grita lá da sala.

O rapazola, então, emenda de bate-pronto:

- Mas eu não me chamo Mr. Darcy!

E dá um sorriso de canto de boca. 

Fonte: Texto escrito pelo papai e publicado em seu blog
https://desconstruindomarcelo.blogspot.com.br/2017/05/miguel-e-autoestima.html?spref=fb 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Todas de barriguinha de fora

- Elas pareciam adolescentes, estavam todas com a barriga de fora - ele comentou sem parar para me encarar ou qualquer coisa. O tom de seu comentário era de crítica, e foi quando perguntei.


Dia de carnaval na escola.

Apesar do Miguel não curtir samba, ele bem topa uma bagunça e se fantasiar.

Lá foi ele com sua fantasia de Finn*. No final do dia chega em casa comentando que achou muito estranho as meninas da sala dele no carnaval.

??????


- Elas não podem ir de barriga de fora? - ao mesmo imaginava fantasias de baiana, odalisca e havaiana que tradicionalmente fazem o estilo "barriguinha de fora".

- Não, porque elas não são adolescentes.

Miguel rotulou e taxou o lugar apropriado para determinada vestimenta, e porque não comportamentos? Nesta nova escola se depara com atitudes que antes lhe pareciam distantes. Há que compreender mas não se corromper.

* Finn é personagem do desenho animado Hora da Aventura - http://www.imdb.com/title/tt1305826/

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Rotulando o outro

Na escola uma das atividades é descrever as características de outras pessoas. O tão conhecido nós X o outro.
Miguel recebeu um desenho com duas crianças  e descreveu com seu olhar a cena que se passava - são amigos! A professora, incutida de suas intenções se porque não de seus preconceitos, o "corrigiu".  Um era alto e outro baixo, um era magro e o outro "gordinho".
Esta doeu no meu útero.
Primeiro porque ele viu algo além de descrições estereotipadas.
Segundo porque não há problema ser gordo ou magro, mas é necessário definir o parâmetro de comparação. Estas qualidades não existem intrinsecamente no ser humano, mas são adotados pelos outros (aqueles que não o sujeito de quem falamos) em relação a um ponto qualquer inicial que servirá de base de avaliação.
Eu por exemplo com 57kg sou GORDA em relação a Gisele Bunchen, e sou MAGRA em relação à Preta Gil. Mas isso não diz nada sobre mim, só serve para me identificar em meio a uma multidão de estereótipos.
Então continuamos a conversa...
Não existe feio ou bonito, na verdade escolhemos o que nos parece belo ou não. E Miguel completa:
- Ah, como no Modern Familý* quando a Alex diz que a arte é bela para uns e feia para outros.
- Isso aí, meu filho. - comenta o pai orgulhoso.
Mas será que ele entendeu?
 - Agora finge que não lembro do Cameron ( personagem da mesma serie) e descreve ele. - pede o pai cheio de intenções, uma vez que a personagem é GAY, HISTÉRICO e GORDO(sim usei vários estereótipos, mas a ideia é essa).
Resultado de imagem para modern family cameron mitchell - Ah não sei... - diz o Miguel já tentando imaginar a pegadinha por de trás do pedido.
 - OK, então me diz como eu sei quem e o Cameron e quem é o Mitchel?
 - Ah... o Mitchel é o de BARBA. - show, eu jamais o descreveria assim, pra mim ele é o RUIVO.
- E o Cameron?
Ele tentou não responder esta pergunta e saindo pela tangente disse:
 - O da cara ENGRAÇADA.
Sim o cara é gordo em relação aos demais do elenco, inclusive a questão do peso surge em diversos episódios, não há nada de errado nisso. 
A conversa continuou no ar, e também a nossa dificuldade em mostrar a diferença entre utilizar características de uma pessoa como ofensa ou como simples descrição. Num mundo onde o politicamente correto toma conta de tudo que pensamos, falar muitas vezes a verdade dos fatos, se torna um exercício escorregadio de fugir do abraço de uma Anaconda, você até se esquiva mas acaba sendo pego.
Meu filho, o que importa é que não há nada errado em ser gordo, feio, magro, baixo, alto, bonito, gay ou hétero desde que qualquer destas características não sejam utilizadas em tom depreciativo. 
O mais importante, e isso o Miguel sabia no início do exercício, é que eles eram amigos.

 

* Modern Family - seriado de TV americano que aponta uma nova configuração familiar onde há divórcios, casamento homossexual, casamento tradicional, casais com diferença de idades, estrangeiros, adoção de crianças, etc.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Babá? Não obrigado

No ônibus indo para a piscina, Miguel começa a planejar seu aniversário que será em 6 meses, acho que ele será de Planejamento Estratégico.

Bem, entre sonhos com personagens, guloseimas da Milou e amigos convidados surge uma preocupação - o primo que nasceu na véspera do seu aniversário e este ano completa 1 ano.

- Mamãe, eu  não quero que o D. vá na minha festa.

- Ué, por que não?  Você não gosta do seu primo?

- Gosto, ele é fofo. Mas.....  - esse "mas" é o que acaba com a gente. - Mas é melhor não.

- Miguel, você sabe que pode falar qualquer coisa para a mamãe, o que é?

 - Ele ainda é muito pequeno. E é muito chato quando a gente sai, e vai em restaurante ou na casa da vovó e ele vai também porque sempre tem aquela moça que fica com ele no colo. E a gente não pode brincar com ele. Ela não é da família, ela não tem que ir.

 - Mas ela ajuda a sua tia a tomar conta dele. Conta história e cuida dele.

 - Por isso eu não quero que ele vá! Se ele for sozinho tudo bem, mas com ela não.  Ela estraga tudo.

- Coitada, ela é boazinha. - eu disse tentando contemporizar, mas intimamente concordando - E as cuidadoras da bisavó?

- Elas são chatas também. Não gosto quando elas vão, mas atrapalham menos.

 - ???????????? Então converse com a sua tia e diga como você se sente.

 - Ah, não quero mais falar sobre este assunto.





Casa de coração

Resultado de imagem para casa de coraçao
Cena I - Eu e Mi sentados no sofá, conversando qualquer bobagem. De repente, movida pela saudade e carinho, mando aquela frase sentimentalista e piegas.

Eu: Miguel, você tem o coração de ouro! <3 span="">

Miguel: Então, por que a gente não arranca meu coração fora e compra uma casa? :p Entendeu, hã? Hã?


* E ele ainda deu uma piscadinha...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Victorio's Secret


Se houvesse um Victorio's Secret, sem dúvida o moleque estaria entre os modelos mais requisitados. 

Sente o olhar penetrante. 


A imagem pode conter: 1 pessoa

Já falei aqui, mas vale repetir ad nauseam: vai ser bonito assim na casa do chapéu. Com todo o respeito.

* Contribuição do pai.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Eu te amo

Temos o habito de falar e ouvir "eu te amo", mas será que sabemos o que significa? 

Será que a pessoa pra quem falo sabe o que quer ter dizer pra mim?

O que você quer dizer quando fala "eu te amo" ?




segunda-feira, 25 de abril de 2016

A origem da tradição

Miguel tem origem judaica e não judaica. Desde seu nascimento eu e o pai nos preocupamos com os ritos e lendas que seriam passados a ele. Embora eu tenha admiração pela cultura judaica, acordamos que cada um ficaria encarregado de transmitir sua cultura, sua crença e assim vimos seguindo.


Acontece que na família do pai há um rompimento com caráter religioso da tradição e todas as festas e comemorações tendem a um lado histórico e laico. 

Ao longo dos anos em que compartilho estas datas com eles, percebi um processo de afastamento com a origem cultural. Claro que após o falecimento dos parentes mais idosos e antigos na tradição, é natural que ocorra um ajuste na forma de transmitir sua história. Mas o que presencio é triste pra mim, me parece um esfacelamento das relações com a história.

Posso estar sendo exagerada, mas eu vejo pelo lado do meu filho. A maior parte do que ele sabe aprendeu comigo e eu não sou judia. Se eu não entender posso passar alguma interpretação desviada, errada, sabe? Esta não deveria ser uma preocupação minha.

Há algum tempo atrás ele ouviu de uma pessoa próxima que só é judeu quem nasce de barriga judia, ele me perguntou se eu era judia e eu disse que não. Penso, logo existo. Minha mãe não é judia, logo eu tão pouco. Este assunto está encerrado para ele, mas não pra mim. Eu e meu marido ainda gostaríamos que ele tivesse contato com a história da origem da família, por outro lado não me cabe esta tarefa. E daí vai o sentimento de esfacelamento ao qual me referi.

Ainda me lembro das festas da minha infância onde histórias eram contadas, ou inventadas (não importa), mas eram aos poucos gravadas em mim. Faço com o Miguel a tradição de contar e reinventar histórias sobre as minhas crenças, e nestas, ele acredita e segue, e com certeza dará continuidade, mesmo que seja da forma e à maneira dele.

O importante é que os laços se mantenham, e que ele possa reconstruir os passos de sua ascendência, e construir sua história que é tão bonita. Espero que ainda tenhamos tempo de apresentar a ele opções de visão de mundo, de construção e percepção de realidades. Afina, ele não é filho de chocadeira, e a história da nossa origem é parte de quem somos e de quem queremos ser.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Mundo Perfeito

Acordo de manha aninhada ao meu pimpolho que havia me pedido para dormir na minha cama na noite anterior. Depois de abrir os olhos sonolentos, ainda com a lembrança do último sonho da madrugada, e trocarmos beijos e abraços, começamos a conversar.

Estas conversar matinais são sempre muito tranquilas e sempre cheias de uma imaginação repleta de paisagens oníricas.

Foi neste cenário em que eu e meu Miguel ficamos a papear na cama nesta manhã. Entre uma risada e outra, um afago e um cochicho, ele disse:

- Mamãe, eu queria que o mundo fosse perfeito. Perfeito de verdade!

- Perfeito como?

- Perfeito, ora. Sabe, quando a gente cai e não se machuca. Porque às vezes a gente está andando na rua e tropeça e não consegue se segurar e cai. Seria perfeito se a gente caísse e não se machucasse nunca.

- Isso seria perfeito?!!!

- Sim. Seria perfeito, porque aí ninguém iria se machucar nunca mais.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Matrix, nuvens de algodão e filosofia no Baixo Terê

Com a chegada do Sol, após dez dias de chuvas ininterruptas, corremos para o Parque Regadas para Miguel dar umas piruetas no skate.

Ao sairmos da aula de bateria e cruzarmos a esquina da Francisco Sá com a Reta deparamo-nos com um céu turquesa e nuvens de algodão.
Miguel observa "olha Vovucha essa nuvem parece de desenho animado".
"É mesmo Miguel. Eu penso a mesma coisa quando vejo essas nuvens".
Miguel e Kira atravessaram a rua juntos, eu sigo logo atrás e percebo que eles estão conversando. Kira me diz ao pé do ouvido "ele é um cartesiano ".
Ao chegarmos no Parque sentamos nos degraus que formam uma pequena arquibancada e, curiosa, pergunto o que eles estavam conversando Miguel então repete a história.
"Vovucha, as vezes eu fico pensando que estamos dentro de um desenho animado"
“É Mi !"
"É mesmo, pode ser sim, Vovucha" - fala ofegante de excitação - "e quando a gente dorme é porque alguém pegou um controle remoto e desligou a gente. A gente pode estar num vídeo game ou num desenho"
"É Miguel?"
"Pode ser Vovucha. Pode ser até uma criança".
"Uma criança brincando com a gente?" - pergunto perplexa.
Kira argumenta "E esse desenho teve alguém que criou?"
"Isso não sei dizer", dispara o pequeno filósofo.
Kira continua "Miguel, imagina que você tem dois personagens homens e dois mulheres. Quantos personagens você tem?"
"Como assim?! Exclama com ares de quem estava pensando em outra coisa.
Kira refaz a pergunta com as personagens do seu desenho favorito (Hora da Aventura) e captura sua atenção.
"Você tem o Finn, o Jake, a Jujuba e a Marceline. Quantos personagens você tem?"
"Quatro".
" Teria como ser diferente?"
"Como assim, os personagens? Não entendi!"
"Então, essa é a certeza matemática. E se eu lhe disser que pode ser diferente", Kira desafia.
"Como assim?"
Entro na conversa e tento reconstruir as falas para registrar depois o nosso papo. Miguel me interrompe mais empolgado ainda.
"Peraí, você fala 'ele' clicou o botão falar. Eu falo 'ele' clica o meu botão. A Kira fala ... cara ... isso é muito estranho ...
"Muito estranho" - completo segurando o riso.
Kira continua "e se essa criança (que criou o desenho) está fazendo a gente pensar que dois mais dois é quatro mas na verdade não é. Ela quer enganar a gente. Na verdade é cinco!"
"Não Kira, olha só, um, dois, três e quatro!" mostra articulando os dedos incrédulo.
Kira rebate "mas isso não tira a possibilidade da gente imaginar, da gente pensar e duvidar".
"Peraí Kira. Eu nunca entendi o que a princesa Jujuba fala no desenho".
Rimos os três.
Ainda pensativo Miguel solta um leve suspiro e começa a falar dos desenhos formados pelas nuvens no céu. Um castelo. Um rosto.
Por alguns minutos ficamos os três admirando o ir e vir das nuvens no céu.
Eu maravilhada e agradecida por estar na companhia desses jovens filósofos.
Feliz por ver a Kira em pleno exercício docente ensinando com docilidade e firmeza de ideias.
Feliz por reconhecer que as horas intermináveis que Miguel passa nos games e desenhos o faz refletir.
Algumas nuvens depois Miguel pega seu skate e inicia suas manobras radicais.
Continua na próxima nuvem
.


Texto da Vovucha na temporada de férias do Mi.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Miguel e Nitzcshe

Eu e meu marido temos concepções bem diferentes sobre a cosmologia do mundo, acreditamos (ou desacreditamos) em coisas diferentes, e se não fosse nosso amor e nosso desejo comum de querer envelhecer juntos, talvez já tivéssemos traçado caminhos opostos.

A verdade é que temos formações familiares bem distintas. Não me entendam mal, não é como se um fosse a luz e o outro as trevas, ambas as nossas familiares são boas e possuem valores dignos de serem seguidos. Mas existem alguns pontos de divergência que, na minha opinião, não devem ser discutidos, apenas respeitados.

Por exemplo, nós dois adoramos os Beatles, mas eu prefiro as músicas lado A e ele é total B side. Eu tomo vinho tinto, ele prefere branco. Eu torço para o Glorioso e ele para as massas. e por aí vai.

Mas brincadeiras à parte, existem assuntos sérios nesta divisão de crenças e valores. Ele é ateu, e eu acredito em Deus (na verdade sou politeísta, então acredito em Deuses e Deusas). Nossa sorte é que nenhum de nós segue uma crença institucionalizada, mas por outro lado, seguimos nossas famílias.

Em nossa casa reina o respeito (não ouso falar em tolerância que uma palavra horrorosa, mas em outro momento falamos disso). Sempre me sintonizei com aquilo em que acredito enquanto na direção oposta meu marido tratava de ser um ateu tradicional (do pó viemos e para o pó voltaremos, logo pra que perder tempo com isso).

Mas no momento em que Miguel chegou, tudo mudou. Ficou combinado que cada uma falaria com ele abertamente sobre suas (des)crenças. Mas conflitos invisíveis surgiram. E num dia qualquer, em passeio com a minha mãe que o Mi disse que Deus é uma fraude, ele não existe.

E com esta revelação do meu filho iniciou-se uma guerra santa silenciosa. Na verdade, surgiu uma necessidade em mim de entender de onde vinha esta fala articulada dele e este repúdio ao invisível. 

Afinal, porque Deus amedronta tanto a ele e ao meu marido? Acho as religiões muita mais perniciosas, não em si, mas simplesmente porque colocam um intermediário em nossa relação com a espiritualidade. Minha visão de Deus é mais ampla, é quase que pautada na física quântica e nas relações entre todos os seres/coisas que é conduzida pelo invisível (a vibração energética dos átomos, mas este é assunto para outra conversa :)).

E por que Miguel desdenha a existência de Deus e acredita em Papai Noel? Será que é a forma que encontrou para se aproximar da crença do pai e da mãe, se identificar com cada um e não ter que fazer escolhas. Ou será que estamos sendo tão péssimos pais que mantivemos nossos diálogos "intectualóides" na presença dele e o confundimos com aquilo que não tem resposta, não tem verdade?

Ainda temos uma batalha de verdades para traçar e valores a ensinar ao meu pequeno Nitzcshe. Só não desejo que ele se torne um cético irônico sem antes conhecer as possibilidades que existem de se viver em harmonia consigo mesmo e com os outros.

Fonte da tirinha: http://www.umsabadoqualquer.com/


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconstruindo Miguel

Quando trouxemos Miguel da maternidade e os avós deram no pé assim que o pirralho começou a chorar e mijar, percebemos a enrascada em que havíamos nos metido. Noites em claro, choro sem motivo (será?), peito o tempo todo, Renata com olhos perdidos no infinito, instintos materno e paterno o escambau. Amor incondicional? Pois sim... Ausência de diálogo, sem esse papo de que o olhar diz muito, diz tudo. A palavra e a fala é que nos faz humanos, elas nos permitam compartilhar sentimentos, a forma como experimentamos o mundo, como o interpretamos. Quem não se comunica se trumbica. Miguel não era humano? Não chegaria a tanto, só sei que, numa madrugada, Renata pediu arrego e ligou pra mãe implorando socorro porque não conseguia fazer Miguel parar de chorar e um vulto no andar de cima ficava espiando para tentar descobrir de onde vinha o barulho desesperante. Primeira e única vez, marcante pra sempre.

Aos poucos, Miguel foi se humanizando. É incrível quando, caminhando na rua, você ouve seu filho ler, pela primeira vez, o letreiro de uma loja ou lê a página de um livro infantil pego na biblioteca da escola. No início, balbuciava alguns sons parecidos com palavras, depois palavras curtas inteiras e, de uma hora para outra, desembestou a falar, falar, falar e, hoje, não me deixa assistir em paz o noticiário da televisão porque o silêncio é um crime. A alfabetização lhe permite andar com os próprios pés, ler o mundo de seu jeito em diálogo com quem o circunda. Seu vocabulário faria corar de vergonha muito marmanjo com curso superior (“papai, eu estava me referindo a...”). É quando começa a fase dos “porquês” e não adianta responder “porque sim” porque “porque sim” não é resposta. E tome discussão e conflito e argumentação e contra-argumentação e cara amarrada porque, no final das contas, quem manda são os pais e se os pais dizem que não pode, não pode. Simples assim. Saudades do choro, que o peito alheio amainava...

Sentados à frente da televisão, assistimos desalentados os desdobramentos do massacre ocorrido numa casa de espetáculos de Paris. O repórter fala de terroristas e Miguel pergunta o que são terroristas. Explicamos que são pessoas ruins que causam terror, medo, dor naqueles que pensam diferente deles, geralmente matando. Ele pergunta se teve gente que conseguiu fugir antes de ser morta ou se conseguir se esconder dos alucinados.  Explicar o significado de uma palavra não parece tão complicado, pior é ter de ajudar a entender imagens que vê.

Certa vez, Miguel pergunta por que todos os bandidos são pretos (ou teria dito “negros”?). Perguntamos de onde ele tirou essa ideia, e ele responde que é o que vê na televisão. Temos que explicar que nem todo bandido é preto (ou seria “negro”?), que tem muito bandido de pele clara que não aparece no noticiário ou que, mesmo aparecendo no noticiário, não é apresentado como bandido.Sua percepção de que o crime ou o abandono tem a cor negra se repete quando, através da janela do táxi, vê um menino de rua cheirando cola. Renata me contou que, em outra oportunidade, Miguel disse que não gostaria de ter nascido preto porque os pretos são invisíveis. Socialmente invisíveis, acrescentaria eu, sem tirar sua sagacidade e perspicácia. Ele percebeu que, apesar de existirem fisicamente, indivíduos de pele escura, sobretudo aqueles que vagam pelas ruas do Rio de Janeiro, não existem para quem passa por eles, não são reconhecidos como parte da mesma sociedade, como um “outro significativo”.

Nosso dever é desconstruir estas percepções, ajuda-lo a reinterpreta-las, combater estereótipos, preconceitos, fundamentalismos de qualquer tipo. Dá trabalho, mas, se não fizermos nada, quem o fará? 

OBS: Este post é do papai para o Miguel.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Profissão estresse - mãe

Fui ao médico porque descobri um caroço no antebraço. Logo no início da minha consulta meu médico me tranquilizou dizendo que não era nada, apenas um quisto sebáceo, um acúmulo de gordura, provavelmente causado por estresse e começou a me fazer uma série de perguntas sobre a minha vida.

Desatei a falar sobre os acontecimentos do meu ano de 2014 que foram bem pesados, conflitos familiares, desentendimentos, o peso que sinto com a responsabilidade de manter uma casa, o trabalho desgastante que me toma todo o tempo, os cuidados com o filho pequeno nos dias de hoje que requer toda a minha atenção 24x7.

Ganhei uma licença medica de 5 dias para tentar diminuir o ritmo e encontrar um ponto de equilíbrio.

Depois de dois dias em casa percebi que um dos maiores pontos de estresse na vida atual é o meu filho. meu filho que amo mais que tudo no mundo, que escolhi ter, que desejei que tivesse exatamente estas características que apresenta, o meu Miguel é um ponto de estresse na minha vida. 

E por que? Porque ele é muito parecido comigo, às vezes parece que estou duelando comigo mesma, uma briga entre um eu de 37 anos, adulto, racional e equilibrado, com meu eu de 5 anos, infantil, egoísta, birrento.

O dia a dia com meu filho traz à tona o meu pior lado, tenho que gerenciar tudo que tinha em mim e que deixei para trás ao longo dos anos, no meu processo de crescimento pessoal. Somado das exigências e expectativas da minha família e a do meu marido, que na maioria das vezes são completamente diferentes, e ainda fazer com que isso não interfira na minha vida a dois.

Minha pergunta é, todas as mães passam por isso ou é exclusividade minha? Não me entendam mal, amo meu filho, mas desde sua chegada o nível de estresse, de exigência e responsabilidade só aumentou.  Não existe "teste drive" para ser mãe, ou você cai dentro ou fica postergando até o dia em que não dá mais. 

Eu caí dentro, mas é pesado às vezes, mesmo com todo o amor, como todo o apoio que tenho do meu marido, com toda a espiritualidade, tem dias que quero sair correndo e gritar, gritar muito... 

Miguel, eu te amo mais que o céu e a terra, você tem os olhos e nariz que desejei, o cabelo que escolhi, o sorriso que sonhei. Nos escolhemos há muitas eras atrás e continuaremos a nos escolher por muitas ciclos. Você traz à tona a minha luz e as minhas trevas, me equilibra. Você é o meu sonho realizado, minha ilusão e minha realidade. Eu te desejei. Eu te quis e te quero. Nada muda entre nós, mesmo quando somos maus um com outro, nosso amor persiste. Mas vou te contar uma coisa, cara, ser mãe estressa. Às vezes só quero ficar com você no meu colo te amando em silêncio.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A sinceridade nas palavras de uma criança

A sinceridade das crianças às vezes dói nos ouvidos e no coração quando se escuta. 

Passando por problemas pessoais, resolvi conversar com o Miguel para que ele saiba que a minha cara de tristeza não tem a ver com ele, que o amo muito e que quero que ele seja feliz (blá, blá, blá...).

Perguntei a ele se o que ele precisava  de mim para ser feliz, eis que ele me responde, um boneco. Mas que boneco? Um boneco para ele dormir abraçado à noite. Mas ele nem dorme abraçado a nada, é do tipo bicho solto! Será que ele entende a pergunta? 

Continuei...

Perguntei se ele para ele ser feliz eu tinha que ser feliz também, ou tudo bem eu ficar riste. E na lata: tudo bem ele ficar feliz e eu triste, mas ele tinha que estar feliz. Ai!!!!!  Minha sobrancelha arqueou, meu nariz enrugou e na mesma hora ele mudou de opinião.  Que nós dois tínhamos que ser felizes...

Acho que quando somos crianças é isso mesmo, não pensamos muito em nossos pais ou na felicidade imediata deles, e sim no nosso bem estar, mesmo que bem estar seja uma bala juquinha. Ele não falou nada errado, não quer "me ver pelas costas", ele foi criança, foi sincero, falou o que qualquer um dia nós teria dito aos 5 anos de idade.

E a minha ficha caiu. Pare de se lamentar! É para e por ele que faço a maior parte das coisas, então vamos embora, siga em frente, se tiver que engolir sapo, que pelo menos não seja perereca. No final das contas, a minha felicidade é a dele, aquilo que poderemos compartilhar juntos, e com sinceridade.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre macacos e pássaros


Hoje, pela manhã, eu e meu filho de cinco anos assistíamos ao noticiário na televisão. Na tela, aparece uma imagem em câmera lenta, permitindo aos espectadores decifrar o que uma torcedora da equipe Grêmio gritava em direção a um jogador da equipe do Santos. Meu filho perguntou o porquê da torcedora estar falando “devagar”, do que se tratava aquilo.

Por volta dos 43 minutos do segundo tempo, o jogo havia sido paralisado quando jogadores do Santos avisaram ao árbitro da partida, disputada em Porto Alegre, que o goleiro da equipe estava sendo vítima de racismo. Imagens da televisão flagraram uma torcedora (?) gritando a palavra “macaco”. Entrevistado, o goleiro Aranha afirmou que ouviu gritos de “negro fedido”, “seu preto” e “cambada de preto” e, após, um grupo de torcedores gremistas começou “a fazer barulho de macaco”. Inacreditavelmente, o juiz da partida mandou o jogo seguir.

Achei importante desenvolver o tema com meu filho. Expliquei que a torcedora (?) estava chamando um jogador adversário de “macaco” porque este jogador adversário tinha a pele escura, como os macacos, e que a intenção da torcedora (?) era dizer que o goleiro não era humano, e sim animal. E ser animal, neste caso, era pior do que ser humano. Disse a ele que isso é uma bobagem, que o jogador de pele escura não era pior do que ser humano coisíssima nenhuma, que a diferença na cor da pele não diz nada sobre a pessoa, se é legal ou chata (claro, tive que usar uma linguagem apropriada para uma criança de cinco anos).

Meu filho arremata meu argumento com o seguinte raciocínio: “ah, é que nem a gente que tem pele branca, que não é igual a um pássaro branquinho, não é?”. Vejam que a distinção que ele fez foi entre duas espécies da mesma cor, e não espécies de cor diferente. Ou seja, ele não diferenciou brancos e negros, e sim brancos humanos e brancos não humanos. Para ele, brancos e negros são gente, pássaros e macacos são animais.

O pequeno diálogo é a prova de que o racismo é aprendido, que o ódio não corre pelas veias, mas transmitido através da (des)educação, da desinformação e da desonestidade intelectual. Afinal, estudos recentes já demonstraram que, biologicamente, indivíduos com tons de pele muito distintas podem compartilhar mais de seu código genético do que indivíduos com tons de pele semelhantes ou “iguais” (como medir, não é mesmo?).  

Meu filho tem consciência da diferença da cor da pele que existe entre ele e seus colegas. Ele diz que a dele é “branca”, e a de um colega é “marrom”. Até aí, nada de mais, é apenas uma diferença que ele percebe objetivamente. A questão surge quando esta diferença objetiva adquire um significado, passa a representar algo que vai além da simples pigmentação; passa a simbolizar, por exemplo, de um lado, maior capacidade intelectual e, do outro, a estupidez próxima ao animalesco.


O mesmo acontece com os “olhos diferentes” que ele identifica nos imigrantes e descendentes de asiáticos (outra categoria construída que não dá conta das distinções entre povos e culturas daquele continente), apenas para chamar a minha atenção de uma conversa que ele teve no parquinho perto de casa, quando se aproximou dele e de um amigo um adulto de “olhos diferentes” e seu filho. São diferentes, não inferiores. Quem sabe compartilham gostos em comum? Ele vai descobrir aos poucos.

Meu filho provou como a educação, desde cedo, é importante para a construção de um mundo melhor, onde o respeito à diferença é um valor absoluto e a convivência é estimulada.

Ganhei meu dia. 

Comentário: Esse texto foi escrito pelo papai. Adoro ver o Miguel pelos olhos do pai, então compartilho com vocês. Também pode ser visto em : http://espacoacademico.wordpress.com/2014/08/30/sobre-macacos-e-passaros/

sábado, 31 de maio de 2014

Beijos iguais

Tomando banho com o Miguel, ele vira para mim e diz:

- Eu vi dois bebes meninos dando beijo na boca.

- Ah, é? E pode, dois bebes meninos beijarem na boca?

- Pode.


Continuamos no banho sem dar bola pro assunto e ele continua.

- Eu vi dois adolescentes meninos dando beijo na boca.

- Ah, é? E pode, dois adolescentes meninos beijarem na boca?

- Pode.

Resolvi entender até onde ia o pensamento dele, uma vez que nunca conversamos sobre o assunto e ele não estava me fazendo uma pergunta apenas me relatando o que tinha visto. Queria saber o porquê de estar me contando e qual sua curiosidade sobre o tema.

- E dois homens de barba podem dar beijo na boca?

- Podem.

- E duas mulheres adultas podem dar beijo na boca?

- Podem. – ele parou um pouco como se refletisse sobre algo e então continuou – Dois homens de barba podem dar beijo na boca mas só podem se os dois quiserem, se um dos dois não quiser não pode. E eles têm que gostar do outro.

- Entendi, eles tem que se gostar, tem que se amar é isso?


- É, porque se um não gostar não pode. Por isso que os bebes meninos beijaram.

Nunca comentei com ele minha opinião sobre o assunto e não sei de onde tirou essa ideia, se me ouviu comentar, mas o que importa é a inocência da sua visão de mundo, que permaneça assim, imaculada e doce. Porque é como deveria ser, se tem amor é verdadeiro, é possível, bonito e sincero (essa parte é a minha opinião).