Como tudo começou?

Enquanto revia vídeos e fotografias do meu pequeno de 4 anos (hoje com 7), que teima em crescer mais rápido do que eu consigo acompanhar, aproveitei para reler os diários que fiz desde a gravidez aos dias de hoje sobre cada momento (que julguei importante, essa ideia eu tive com a minha sogra que até hoje guarda escritos sobre fofurices do meu marido quando criança) registrado para que as trapaças da memória não as apagassem.


Foi neste caminho de reviver o passado que me descobri saudosa e percebi que precisava compartilhar as lembranças antes que esmaecessem sob a luz do dia a dia. Então, resolvi que postaria para amigos, familiares e outros curiosos do mundo pedaços desta minha vida, e ainda de lambuja deixar para o meu pimpolho histórias sobre ele mesmo para que um dia leia e sinta como foi esta jornada de chegar ao mundo e traçar seus próprios caminhos.


Espero que gostem e se emocionem um pouco, assim como eu ao revisitar minha história, e se entusiasmem para fazer uma visita à história de vocês.
Sejam bem vindos às "histórias sobre meu filho".

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domingo, 30 de julho de 2017

Liberdade para ser

Miguel trouxe um pote de Nutella da casa da avó. Enquanto fazíamos um lanche ele pergunta:
- Mamãe, por que você nunca compra Nutella?
- Porque ela contém óleo de palma, lembra?
Silêncio reflexivo...
- Mamãe, eu tenho que ser igual a você?
- Claro que não! A mamãe te explica as coisas e conta aquilo em quê ela acredita e você faz as suas escolhas.
- Ah, que bom.
E assim começa a liberdade de escolha.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Uma nova paixão?

No último final de semana enquanto eu estava fora trabalhando em um evento, pai e filho foram convidados para almoçar na casa de uns amigos. Lugar ideal para uma tarde de domingo, todos curtem comer e beber bem, havia área de lazer para as crianças e nossos filhos poderiam socializar de um lado, enquanto os pais bebericavam de outro.

Neste cenário aprazível de uma tarde de verão, começou um tititi entre as crianças. Eu não estava presente então estou recontando em terceira mão o ocorrido.

Num dado momento da brincadeira vem à tona, talvez precocemente, a conversa de quem acha quem bonito. É engraçado porque me lembro de nesta idade começar a ter algum interesse pelos meninos mas ainda de forma bastante ingênua. Beijos (numa rodinha de verdade ou consequência) e  insinuações surgiram por volta dos 10 anos.Resultado de imagem para meninos e meninas brincando 8 anosMiguel revela ao grupo de amigos, composto por três meninas e um menino (fora ele) que achava uma das meninas da roda bonita. A irmã dela o puxa pelo braço e leva para outra área e, à distância, o pai testemunha um ir e vir frenético entre a patota. É o frenesi da descoberta, da identificação com o grupo e da diferenciação entre meninos e meninas.

O que rolou não sabemos ao certo. A pergunta feita foi sobre sua eleita de até então, teria sido esquecida? Substituída? Uma nova paixão? Mas ele desconversou, entre risinhos tímidos e envergonhados. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa...

Será que houve alguma troca de afeição? Espero que não, que eles se permitam viver a ingenuidade da infância de forma plena, porque uma vez maculados não há volta, o véu do mundo se abre e o caminho de volta é lacrado, é daí pra frente. 

É uma delícia vê-los experimentando a vida. Para nós pais, espectadores, só nos resta apoiar e orientar, e aceitar que aquele bebezinho está, há muito, caminhando com as próprias pernas.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Rotulando o outro

Na escola uma das atividades é descrever as características de outras pessoas. O tão conhecido nós X o outro.
Miguel recebeu um desenho com duas crianças  e descreveu com seu olhar a cena que se passava - são amigos! A professora, incutida de suas intenções se porque não de seus preconceitos, o "corrigiu".  Um era alto e outro baixo, um era magro e o outro "gordinho".
Esta doeu no meu útero.
Primeiro porque ele viu algo além de descrições estereotipadas.
Segundo porque não há problema ser gordo ou magro, mas é necessário definir o parâmetro de comparação. Estas qualidades não existem intrinsecamente no ser humano, mas são adotados pelos outros (aqueles que não o sujeito de quem falamos) em relação a um ponto qualquer inicial que servirá de base de avaliação.
Eu por exemplo com 57kg sou GORDA em relação a Gisele Bunchen, e sou MAGRA em relação à Preta Gil. Mas isso não diz nada sobre mim, só serve para me identificar em meio a uma multidão de estereótipos.
Então continuamos a conversa...
Não existe feio ou bonito, na verdade escolhemos o que nos parece belo ou não. E Miguel completa:
- Ah, como no Modern Familý* quando a Alex diz que a arte é bela para uns e feia para outros.
- Isso aí, meu filho. - comenta o pai orgulhoso.
Mas será que ele entendeu?
 - Agora finge que não lembro do Cameron ( personagem da mesma serie) e descreve ele. - pede o pai cheio de intenções, uma vez que a personagem é GAY, HISTÉRICO e GORDO(sim usei vários estereótipos, mas a ideia é essa).
Resultado de imagem para modern family cameron mitchell - Ah não sei... - diz o Miguel já tentando imaginar a pegadinha por de trás do pedido.
 - OK, então me diz como eu sei quem e o Cameron e quem é o Mitchel?
 - Ah... o Mitchel é o de BARBA. - show, eu jamais o descreveria assim, pra mim ele é o RUIVO.
- E o Cameron?
Ele tentou não responder esta pergunta e saindo pela tangente disse:
 - O da cara ENGRAÇADA.
Sim o cara é gordo em relação aos demais do elenco, inclusive a questão do peso surge em diversos episódios, não há nada de errado nisso. 
A conversa continuou no ar, e também a nossa dificuldade em mostrar a diferença entre utilizar características de uma pessoa como ofensa ou como simples descrição. Num mundo onde o politicamente correto toma conta de tudo que pensamos, falar muitas vezes a verdade dos fatos, se torna um exercício escorregadio de fugir do abraço de uma Anaconda, você até se esquiva mas acaba sendo pego.
Meu filho, o que importa é que não há nada errado em ser gordo, feio, magro, baixo, alto, bonito, gay ou hétero desde que qualquer destas características não sejam utilizadas em tom depreciativo. 
O mais importante, e isso o Miguel sabia no início do exercício, é que eles eram amigos.

 

* Modern Family - seriado de TV americano que aponta uma nova configuração familiar onde há divórcios, casamento homossexual, casamento tradicional, casais com diferença de idades, estrangeiros, adoção de crianças, etc.

Evolução tecnológica ou doce de criança?

Vendo um filme policial em família, em determinada cena uma das personagens diz que não ainda não viu o disquete e não pode prender o bandido. Aí começa a conversa paralela:
Nenhum texto alternativo automático disponível.
- KKKK disquete, diz Marcelo.
- Miguel, você sabe o que é disquete? - pergunto eu com segundas intenções.
- Claro, né? Uma balinha.
- Uahahahahah - rimos em coro, e nem explicamos mais nada pra ele.
- Isso merece um post - Marcelo completa ainda com o riso no fundo da garganta.
 

E Miguel sem entender continua a ver o filme...
 

Nenhum texto alternativo automático disponível.É assim que percebemos que estamos ficando velhos, quando o auge da tecnologia da nossa infância é o nome de uma bala na infância do nosso filho.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O Coração de Botafoguense


Miguel: - Papai, eu achava que o coração parava de bater quando a gente deitava pra dormir, e voltava a bater quando a gente acordava no dia seguinte. 

Pai:  - Faz todo o sentido, meu filho. Afinal, nosso coração também precisa de descanso, sobretudo os que sofrem de amor não correspondido e maltratados pelo time do coração (que o digam os botafoguenses após o jogo de ontem, né?).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Falta Muito?

Falta muito?

Falta muito, Papai Smurf?

Miguel contando os dias para a noite mais especial do ano.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Matrix, nuvens de algodão e filosofia no Baixo Terê

Com a chegada do Sol, após dez dias de chuvas ininterruptas, corremos para o Parque Regadas para Miguel dar umas piruetas no skate.

Ao sairmos da aula de bateria e cruzarmos a esquina da Francisco Sá com a Reta deparamo-nos com um céu turquesa e nuvens de algodão.
Miguel observa "olha Vovucha essa nuvem parece de desenho animado".
"É mesmo Miguel. Eu penso a mesma coisa quando vejo essas nuvens".
Miguel e Kira atravessaram a rua juntos, eu sigo logo atrás e percebo que eles estão conversando. Kira me diz ao pé do ouvido "ele é um cartesiano ".
Ao chegarmos no Parque sentamos nos degraus que formam uma pequena arquibancada e, curiosa, pergunto o que eles estavam conversando Miguel então repete a história.
"Vovucha, as vezes eu fico pensando que estamos dentro de um desenho animado"
“É Mi !"
"É mesmo, pode ser sim, Vovucha" - fala ofegante de excitação - "e quando a gente dorme é porque alguém pegou um controle remoto e desligou a gente. A gente pode estar num vídeo game ou num desenho"
"É Miguel?"
"Pode ser Vovucha. Pode ser até uma criança".
"Uma criança brincando com a gente?" - pergunto perplexa.
Kira argumenta "E esse desenho teve alguém que criou?"
"Isso não sei dizer", dispara o pequeno filósofo.
Kira continua "Miguel, imagina que você tem dois personagens homens e dois mulheres. Quantos personagens você tem?"
"Como assim?! Exclama com ares de quem estava pensando em outra coisa.
Kira refaz a pergunta com as personagens do seu desenho favorito (Hora da Aventura) e captura sua atenção.
"Você tem o Finn, o Jake, a Jujuba e a Marceline. Quantos personagens você tem?"
"Quatro".
" Teria como ser diferente?"
"Como assim, os personagens? Não entendi!"
"Então, essa é a certeza matemática. E se eu lhe disser que pode ser diferente", Kira desafia.
"Como assim?"
Entro na conversa e tento reconstruir as falas para registrar depois o nosso papo. Miguel me interrompe mais empolgado ainda.
"Peraí, você fala 'ele' clicou o botão falar. Eu falo 'ele' clica o meu botão. A Kira fala ... cara ... isso é muito estranho ...
"Muito estranho" - completo segurando o riso.
Kira continua "e se essa criança (que criou o desenho) está fazendo a gente pensar que dois mais dois é quatro mas na verdade não é. Ela quer enganar a gente. Na verdade é cinco!"
"Não Kira, olha só, um, dois, três e quatro!" mostra articulando os dedos incrédulo.
Kira rebate "mas isso não tira a possibilidade da gente imaginar, da gente pensar e duvidar".
"Peraí Kira. Eu nunca entendi o que a princesa Jujuba fala no desenho".
Rimos os três.
Ainda pensativo Miguel solta um leve suspiro e começa a falar dos desenhos formados pelas nuvens no céu. Um castelo. Um rosto.
Por alguns minutos ficamos os três admirando o ir e vir das nuvens no céu.
Eu maravilhada e agradecida por estar na companhia desses jovens filósofos.
Feliz por ver a Kira em pleno exercício docente ensinando com docilidade e firmeza de ideias.
Feliz por reconhecer que as horas intermináveis que Miguel passa nos games e desenhos o faz refletir.
Algumas nuvens depois Miguel pega seu skate e inicia suas manobras radicais.
Continua na próxima nuvem
.


Texto da Vovucha na temporada de férias do Mi.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconstruindo Miguel

Quando trouxemos Miguel da maternidade e os avós deram no pé assim que o pirralho começou a chorar e mijar, percebemos a enrascada em que havíamos nos metido. Noites em claro, choro sem motivo (será?), peito o tempo todo, Renata com olhos perdidos no infinito, instintos materno e paterno o escambau. Amor incondicional? Pois sim... Ausência de diálogo, sem esse papo de que o olhar diz muito, diz tudo. A palavra e a fala é que nos faz humanos, elas nos permitam compartilhar sentimentos, a forma como experimentamos o mundo, como o interpretamos. Quem não se comunica se trumbica. Miguel não era humano? Não chegaria a tanto, só sei que, numa madrugada, Renata pediu arrego e ligou pra mãe implorando socorro porque não conseguia fazer Miguel parar de chorar e um vulto no andar de cima ficava espiando para tentar descobrir de onde vinha o barulho desesperante. Primeira e única vez, marcante pra sempre.

Aos poucos, Miguel foi se humanizando. É incrível quando, caminhando na rua, você ouve seu filho ler, pela primeira vez, o letreiro de uma loja ou lê a página de um livro infantil pego na biblioteca da escola. No início, balbuciava alguns sons parecidos com palavras, depois palavras curtas inteiras e, de uma hora para outra, desembestou a falar, falar, falar e, hoje, não me deixa assistir em paz o noticiário da televisão porque o silêncio é um crime. A alfabetização lhe permite andar com os próprios pés, ler o mundo de seu jeito em diálogo com quem o circunda. Seu vocabulário faria corar de vergonha muito marmanjo com curso superior (“papai, eu estava me referindo a...”). É quando começa a fase dos “porquês” e não adianta responder “porque sim” porque “porque sim” não é resposta. E tome discussão e conflito e argumentação e contra-argumentação e cara amarrada porque, no final das contas, quem manda são os pais e se os pais dizem que não pode, não pode. Simples assim. Saudades do choro, que o peito alheio amainava...

Sentados à frente da televisão, assistimos desalentados os desdobramentos do massacre ocorrido numa casa de espetáculos de Paris. O repórter fala de terroristas e Miguel pergunta o que são terroristas. Explicamos que são pessoas ruins que causam terror, medo, dor naqueles que pensam diferente deles, geralmente matando. Ele pergunta se teve gente que conseguiu fugir antes de ser morta ou se conseguir se esconder dos alucinados.  Explicar o significado de uma palavra não parece tão complicado, pior é ter de ajudar a entender imagens que vê.

Certa vez, Miguel pergunta por que todos os bandidos são pretos (ou teria dito “negros”?). Perguntamos de onde ele tirou essa ideia, e ele responde que é o que vê na televisão. Temos que explicar que nem todo bandido é preto (ou seria “negro”?), que tem muito bandido de pele clara que não aparece no noticiário ou que, mesmo aparecendo no noticiário, não é apresentado como bandido.Sua percepção de que o crime ou o abandono tem a cor negra se repete quando, através da janela do táxi, vê um menino de rua cheirando cola. Renata me contou que, em outra oportunidade, Miguel disse que não gostaria de ter nascido preto porque os pretos são invisíveis. Socialmente invisíveis, acrescentaria eu, sem tirar sua sagacidade e perspicácia. Ele percebeu que, apesar de existirem fisicamente, indivíduos de pele escura, sobretudo aqueles que vagam pelas ruas do Rio de Janeiro, não existem para quem passa por eles, não são reconhecidos como parte da mesma sociedade, como um “outro significativo”.

Nosso dever é desconstruir estas percepções, ajuda-lo a reinterpreta-las, combater estereótipos, preconceitos, fundamentalismos de qualquer tipo. Dá trabalho, mas, se não fizermos nada, quem o fará? 

OBS: Este post é do papai para o Miguel.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Hora da Aventura

Está cada vez mais difícil acompanhar o que as crianças curtem, especialmente se trabalhamos o dia todo e o tempo que sobre para curtir os filhos é mesmo os finais de semana.

Volta e meia sento com o meu Miguel na frente da TV para vermos um filme ou um programa qualquer. Tenho medo de olhar para trás e perceber que esta fase passou. Ela é único, sinto que cada vez mais que ele se torna independente, menos necessita da nossa companhia. Nada que já não soubesse na teoria, mas viver na prática é outra história.

A gente senta para jogar jogos de tabuleiro, ler livro ou revistinha, fazemos o dever de casa juntos, e ainda há aquela hora do banho em que ele fica conversando sobre o dia. 

Estes momentos são realmente especiais. É quando entramos no mundo dos filhos e descobrimos uma lógica, uma percepção do mundo típica das crianças. Com suas próprias coerências e relações que, para mim, não têm nada de fantasioso. Ao contrário, eles vivem um mundo imaculado da incredulidade dos adultos. 

E foi assim que conheci o desenho mais bizarro que vi nos últimos tempos. Parece que depois de uma guerra apocalítica ou nuclear, sei lá, criou-se um mundo alternativo no melhor estilo "Lucy in the sky with diamonds".Mas não basta sentar do lado e ver o desenho, tem que acompanhar as explicações que ele faz questão de dar para nos contextualizar no seu universo.


Momento de explicação: 

- A Princesa Jujuba é feita de chiclete mas o nome dela é Jujuba, igual a mim, meu nome é Miguel e eu sou feito de humano.


-Mas o que é ser feito de humano? - pergunto.


-Ah, sei lá, né. Sou eu.


Aguardarei a sequência de seu raciocínio lógico no próximo episódio.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Vovô Zé



Estávamos indo ao cinema eu e Miguel e não sei o que levou à conversa, mas começamos a falar do meu pai. Ele perguntou porque ele não vinha nos visitar e respondi que ele morava muito longe. Miguel ficou meio na dúvida se meu pai era seu avô e eu disse que ele tinha sorte porque tinha 3 avôs.

Então Miguel disse lembrava de tê-lo visto na festa das primas em dezembro, e confundiu com sua festa de aniversario, o que acabei não corrigindo porque achei que seria melhor ele ter esta lembrança do avó em um aniversário seu, sei lá.

Ele me disse que lembrava do avô sentado no canto sozinho, e aquilo fez meu coração ficar muito apertado.  Tentei explicar que às vezes o vovô tinha vergonha e preferia ficar sozinho, que ele e a vovucha tinha se separado quando eu era muito criança e que ele ficou muito tempo longe e que hoje ele não sabe muito como ficar perto. Mas que ele amava muito o Miguel e a mamãe.

E ele me perguntou:

- Mas ele me ama só porque eu sou o neto dele?

- Claro, e você acha isso pouco? Você é um cara muito legal!

- É mesmo.

 O assunto morreu ali. Eu nunca vou saber como explicar isso para ele, se eu mesma não sei explicar para mim.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Experiência x experimentação

Esta semana recebemos uma notificação da escola sobre o mal comportamento do Miguel. Ele pegu um copo urinou dentro, misturou sabão, pasta de dentes e  jogou no chão do refeitório. 

Lastimável! 

Quando questionado, pela professora, sobre o porquê disso, respondeu que queria fazer uma experiência. Foi conduzido à coordenação, para reforçar o entendimento que pra tudo há hora e  lugar e daí a tal anotação.

Mal cheguei em casa, ele mesmo veio me contar, de cabeça baixa e ombros caídos, que havia uma nova anotação na agenda (já tínhamos recebido outra dois dias antes). Ele me contou com detalhes, antes mesmo que eu pudesse ler a versão da escola, com uma riqueza de detalhes e uma seqüência lógica extremamente desproporcional para uma criança de quase 5 anos de idade.

O que me chamou atenção em seu relato, além do fato dele ter vindo me contar de livre vontade, livre de preconceitos ou temores das sanções que pudesse vir a sofrer, foi o motivador do caso. 

Uma das cuidadoras/auxiliares mostrou a ele uma experiência feita por um aluno de uma turma mais velha, acredito que feia em uma aula de ciências, onde uma bexiga e uma luva cirúrgica simulavam o funcionamento do coração e pulmão. Era uma experiência super interessante com apelo visual incrível e que traziam ainda um conteúdo, um saber.

Na mesma hora, sua mente começou a funcionar e algo dentro dele disse que ele também tinha que fazer uma "experiência". Ele utilizou os recursos que encontrou pela frente e foi embora, deixou-se levar pelo afã da curiosidade, pela inquietação do ser humano, pela necessidade de experimentação.

Concordo com a escola, cuja  lição para ele, é que cada coisa tem sua hora e lugar para acontecer, que fazer xixi no copo e jogar no chão não é uma coisa legal. Por outro lado, não posso deixar de me impressionar com a forma como a mente do Miguel funciona, e  com os anseios de seu coração. 

Conclusão, estou devendo a ele realizar algumas experiências em casa, fizemos um bolo juntos para que eu pudesse explicar o processo da fermentação, mas tem que ser outra coisa mais palpável. Vou ver se pendo em algo ou então compro um kit de química.

domingo, 11 de maio de 2014

Dia das mães

Neste dia das mães o presente foi meu para o Miguel.

Nada melhor do que aprender a subir no vão da porta ou escalar as paredes do corredor.

E quem para ensinar e dar confiança ao pimpolho numa aventura descabida dessas? Mamãe!



sábado, 5 de abril de 2014

As artes

Criança não gosta somente de brincar, ver desenho, correr. Eles também sabem apreciar arte. Desde que temos oportunidade levamos Miguel para exposições e Museus e já pudemos constatar que ele sabe apreciar arte. Não importa que seu olhar sobre o assunto seja infantil, o importante é que constrói um olhar sobre a realidade a partir da arte.

Há dois finais de semanas que ele se depara com beleza e brincadeiras. Primeiro fomos ao Museu de Arte Naif, onde numa exposição guiada para criança ele teve que procurar um leão que se escondia de quadro em quadro, até que no final teve que fabricar seu animal Naif com material de sucata. Coisa mais deliciosa, prazerosa, lúdica...



Neste último, depois de uma pequena fila à porta do MAM, fomos ver as esculturas de Ron Mueck, artista australiano, que reproduz imagens humanas com grande perfeição e detalhe, em escalas diferentes do corpo humano. Quando perguntando sobre a peça que mais gostou, Miguel foi bem rápido e não titubeou, o vídeo que mostra o artista criando as obras, passo a passo. A revelação do processo criativo foi para ele o tchan da exposição.



Espero que possamos com estas ações incutir em nosso filho o gosto pela arte e o olhar relativizador que ela nos trás. Que ele saiba ver o mundo com outros olhos, fora do quadrado e não seja um conformista, mas um idealista.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mito da Caverna

Não é de hoje que Miguel vem me perguntando sobre se o que passa na televisão existe ou não. Se as pessoas que aparecem são reais ou não. Perguntas um tanto estranhas para nós que estamos tão habituados este entendimento são bastante pertinentes para um menino de 4 anos e 8 meses que começa a perceber que as coisas não como parecem ser.

Quantas vezes vemos um filme ou desenho em que aparece uma cena de susto e dizemos para ele não ter medo que aquilo não é de verdade? Mas agora ele já começa a reconhecer que o mesmo ator de Star Wars fez Indiana Jones, então que não é real? 

Ele começa a nos perguntar se "aquela pessoa" (um ator qualquer) existe fora de um filme. O conceito de ator e personagem começa a se tornar palpável e menos abstrato. Mas e o jogo de futebol? A poucos minutos me perguntou se o jogo que víamos na TV era de verdade. Tentei explicar que sim, que o jogo estava acontecendo no bairro "tal" naquela mesma hora em que víamos na TV e que poderíamos encontrar aqueles jogadores se fossemos ao estádio. Bizarro!

Não pude deixar de pensar que Miguel do seu jeito infantil, até mesmo arcaico, começava o desvendar do mito de sua caverna da Platão. Aquela história sobre as pessoas que viviam na caverna sem nunca sair e achavam que as sombras que se projetavam ao fundo da caverna eram a realidade e não a vida que se passava lá fora. Seu questionamento sobre o que existe dentro e fora da TV é o desvendar do véu do nosso mito do que é real, imaginário, palpável, sonho, enfim do que é a vida. Ainda de forma rudimentar ele experimenta, arrisca, e junta as peças deste quebra-cabeças que é a vida humana. 

Acho simplesmente lindo que ele tão pequeno já carregue consigo a semente da inquietação, do questionamento do saber. Só me faz amá-lo ainda mais e querer fazer parte do seu caminho de descoberta. Quem sabe eu ainda não tenha alguns véus a desnudar?


Para vocês o mito da caverna na versão do Maurício de Souza, já que estamos falando de crianças...




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Adaptação: nova escola

Na última segunda-feira tivemos uma reunião de pais na nova escola do Miguel para falar do esquema da adaptação dos novos alunos. Enquanto a psicóloga falava, minha mente girava num redemoinho ainda pensando naquela palavra "adaptação". No meu plano de trocar ele de escola eu havia pensado em praticamente tudo, mas em momento algum me passou pela cabeça que ele teria um tempo para se adaptar à condição de novo aluno, à nova escola e tudo o mais que a tal psicóloga continuava a falar. Muito menos que ele estaria "proibido"a frequentar o período integral.

O meu esquema foi pelo ralo, e rapidamente, como numa daquelas cenas de Sherlock Holmes eu tentava antever a jogada do meu adversário para poder bolar um plano B e C para poder tratar este, digamos, impasse.

Cheguei em casa ainda aturdida de tantas informações e com a tarefa de no dia seguinte negociar com meu chefe um horário flexível pela próxima semana e meia, com a esperança de que meu filho cairá em si e abraçará aquela escola como a outra.

Revivi dentro de mim a primeira adaptação na creche quando as berçaristas no terceiro dia tiraram meu bebe de 5 meses dos meus braços e disseram "Mãe, hoje ele pode ficar sozinho 3 horas". Minha reação foi pegar um ônibus até a Tijuca para fazer compras no Guanabara. Eu sequer olhei para trás, afinal eu só tinha 3 horas.

Hoje foi o primeiro dia de aula/adaptação dele. Mas um imprevisto e nossa empregada (braço direito de todas as horas) não pôde vir, então fiquei em casa com ele na parte da manhã para poder introduzi-lo na nova escola à tarde. 

A manhã passou lenta, como se dividíssemos a ansiedade do que nos aguardava na parte da tarde. Não pude dar muita atenção a ele pois precisava adiantar meu trabalho de casa mesmo. Mas percebi nele uma certa euforia e decisão, chegou até a falar que iria sozinho na rua. 

Deu a hora e  fomos indo, alegres, caminhando pela rua. Miguel insistiu para carregar sua mochila, queria se mostrar ainda mais independente agora iria para o grupo 5 (pré-alfabetização). Mas quando chegamos em frente ao portão, ele não resistiu, virou-se para mim e disse que estava triste. Meu coração já em frangalhos fazia um tremendo esforço para não se partir, afinal eu sou a adulta da relação e tenho mais condições de suportar este tipo de situação, tentei encoraja-lo e entramos. Ele foi indo bem, porém empacou à porta da sala, me fazendo entrar com ele.

Daí para frente foi tudo muito estranho. Eu tive que participar com ele, por mais que eu quisesse me fazer invisível, porque sei o quanto a minha presença faz com que ele se torne vulnerável e tímido, mais até do que quando está com o pai. 

Me emocionei, a ponto de ficar com um bolo na garganta, com o relato daquela professora tão doce e gentil controlando a turma de 22 feras, e dando-lhes as boas vindas a uma turma mais velha. Ali, eu achei que teria que sair da sala para chorar, mas me segurei. Tentei fazer com que o Miguel explorasse a escola com a turma, assegurando a ele que eu não iria embora de jeito nenhum. Na hora do recreio ele ainda brincou (sozinho) mas logo se enrolou no meu colo, em posição fetal, e apesar de todos os esforços das professoras para induzi-lo e introduzi-lo ao grupo, ele a todo momento se referia à antiga escola e amigos.  

Ele resistiu até a hora do lanche (até serviu de ajudante, servindo os pratos a todos), no entanto pediu à professora que o liberasse, e por volta das 16h voltamos para casa, com a promessa de voltarmos amanhã. Já na saída do portão ele se virou para mim e disse: "Eu até gostei desta escola". Dá para entender estas crianças?

sábado, 21 de dezembro de 2013

Mamãe empolgada

Será que o Miguel entende as coisas que ele fala? 

Ele repete as palavras e frases que nós adultos falamos, com tanta propriedade que eu chego a acreditar que ele sabe do que está falando, mas ele só tem 4 anos, então, é possível que ele apenas esteja repetindo, sem saber o real significado daquilo.

Ontem eu entrei toda animada na sala, dançado alegre, e ele vira para mim e diz:

- Pára, mamãe, de ser empolgada.

Aquilo me chocou por dois segundos, acho que ele fica um pouco envergonhado porque eu sou alegre e desinibida como as amigas dele. Imagine quando ele for adolescente? Mas eu já ia saindo da sala, voltando ao meu "passinho"quando ele emendou:

- Você é muito "folgosa".


Aí eu tive que voltar e perguntar se ele sabia que palavra era aquela. Ele disse que não, baixou a cabeça e ficou rindo. Eu perguntei onde ele tinha ouvido (embora eu já soubesse a resposta), e ele apenas me confirmou minha suspeita, a música da MC Anitta.

Então é isso, antes de brigar, colocar de castigo, é melhor checar o que esses pequenos estão falando, pensando ou sentido. Ele não sabe o que é fogosa, mas usou num contexto relativamente correto e tirou de outro ainda mais interessante. Eu não tenho como controlar onde ele aprende estas coisas (normalmente é no contato entre os amigos na escola, não estou culpando ninguém), só tenho que estar atento porque hoje é algo banal e amanhã será o quê?

sábado, 23 de novembro de 2013

Saída pela esquerda

Hoje após uma saraivada de esporros e conversa de conciliação, Miguel vira para mim e diz que quer quando ele nascer de novo quer que eu seja sua mãe outra vez.

Fiquei com aquela cara de Maria mole.

Aí, eu viro para ele digo:

- E se de repente a mame for sua filha e você for meu pai?

- Mãe, criança não pode ter filhos.

sábado, 16 de novembro de 2013

A Magia do Natal


Fui levar o Miguel para ver o Papai Noel no shopping e levar a cartinha dele. No dia anterior estávamos em casa vendo filme de natal (Operação Presente) em que a menina escreve para o Papai Noel pedindo uma bicicleta rosa.

Durante o filme ele me questionou se Papai Noel existe e se eu acredito e tal. Na verdade eu acredito mesmo nele, claro que não acredito que um velhinho percorra o mundo inteiro em uma única noite distribuindo presente, mas acredito que ele seja o espírito da esperança e da magia que toda criança tem de mais puro em si e que nesta época do ano todos tentamos reviver de alguma forma.

Então sim, eu acredito em Papai Noel!

E gostaria de cultivar no meu filho este mesmo sentimento bom, de fé e otimismo, que emana deste personagem.

Depois de muito eu acredito e você tem o direito de acreditar se quiser... blábláblá (ele tem medo de não acreditar, até o pai disse que acredita e olha que é judeu), fomos ver o Papai Noel. Ele entregou a cartinha e o velhinho a abriu e leu na frente dele. Achei o máximo, porque só reforça o encanto.


Para manter o clima mágico, na hora de montar o presente, escolhi uma embalagem que mais ninguém da família irá receber, tive o cuidado de usar até mesmo um laço de fita de natal que minha mãe me trouxe de fora e um cartão comprado há muitos anos. O presente do Bom Velhinho tem que ser único, direto da fábrica do Pólo Norte para o meu “nice boy”.

As crianças de hoje são muito espertas e crescem muito rápido, mas gostaria que ele pudesse desfrutar ao máximo possível deste mundo encantado e mágico da infância e da inocência.


Então, vamos manter a magia do Natal... (daqui a pouco vem o Coelhinho da Páscoa e a Fada do Dente). 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sábia a mente de uma criança é

Quando eu era criança tinha pavor do Darth Vader, todas as vezes que assistia a um filme da série Guerras nas Estrelas, eu sempre me escondia quando o vilão de máscara negra e voz abafada aparecia na tela.

Darth Vader é um dos heróis do meu filho de 4 anos!

Sempre me pergunto que ele vê nesse personagem, inclusive sua festa de aniversário foi do Star Wars com direito a ator travestido de Lorde das Trevas e crianças brincando com sabres de luz. Mas neste final de semana ele ganhou de dia das crianças a trilogia (antiga) do filme.

Ele já estava careca de ver o episódio II, aquele em que Ankin casa com Padmé e começa a ir para o lado negro da força, e já tinha visto ele cair na lava quente e se transformar em Vader, e ainda se confunde com Luke e Han Solo. Mas era a primeira vez que veria o Retorno de Jedi.

Tudo ia bem na história e eu já o havia preparado para a morte do Lorde Vader, mas quando chegou a cena em que pai e filho se deparam e lutam um cm o outro, e Luke decepa a mão do Pai enquanto o malvado Imperador Lorde Sith incita o herói a seguir os passos do pai, e ataca Luke, Miguel saiu correndo da sala.  Não porque estivesse com medo do filme em si, mas porque achou que Darth Vader ia matar o filho. Ele virou para mim e disse: “mamãe, mas ele vai matar o filho?”.

Parei o filme e chamei-o de volta para a sala. Vamos lá, ele não estava com medo da cena, mas de que o pai matasse o filho! Expliquei que não, que ele estava salvando o filho porque ele tinha visto que dentro do Darth Vader ainda tinha um lado bom que era o Anakin, e que ele ia matar o malvado Imperador. Então, ele vira e diz: “Coloca de novo para eu superar”.

Superar, superar o quê? O medo de ver o filme? O pai matar filho? O mal?

Aquele vilão malvado encanta meu filho porque ele conhece uma história que eu vi pela metade, no meu tempo só existiam três filmes, meios desconexos que se juntavam de repente no último. Mas para o Miguel não, ele conhecia o Anakin, e o viu se tornar mal, porque ele queria tanto ser bom, e foi enganado, cedeu ao poder. Ele sabia, assim como o Luke, que dentro daquela máscara tinha uma cara legal.

E no final do filme Miguel ainda diz: “Eu não quero ir para o lado negro da força não, mamãe, eu quero se bom”.

Eu passei a gostar mais do Darth Vader e achar os outros heróis uns chatos.

Comentário após relato: Não sei o que pensar das crianças dos dias de hoje, eu com 4 anos era um bebe, Miguel é um mini adulto, cheio de reflexões e percepções sobre o mundo. De fato nunca havia me atentado para o dilema pai-filho que ronda o filme Retorno de Jedi, claro que abordado de uma forma bastante superficial, a primeira trilogia é bem mais densa, mas ele tão pequena percebeu que não pode haver este tipo de enfrentamento entre pai e filho, e isto o assustou mais que a guerra. O coraçãozinho dele pulava loucamente em seu peito. Mas querer enfrentar seu medo e ver o que se passava foi mais corajoso que muito de nós em nossos temores pessoais.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quando chega a hora de mudar de escola

Quando escolhemos a creche do Miguel há quase cinco anos atrás, perguntamos a amigos e conhecidos e pedimos indicações. A alegria do seu primeiro dia e a expectativa de que tudo desse certo, que ele se adaptasse, eram tantas...

Até hoje me lembro daquele 19 de outubro de 2009, o dia em que o entreguei para a berçarista e não olhei para trás (figuradamente), rompendo pela segunda vez nosso cordão umbilical, na certeza de que fazia o melhor para ele. A partir daquele dia, construímos uma história repleta de alegrias, descobertas, sustos e de muitos, mas muitos amigos mesmos.  Ele aprendeu a sentar, engatinhar, andar, falar, correr, dançar, cantar, a tomar banho sozinho, escrever seu próprio nome, a se emocionar com os amigos, a se encantar pelas meninas. E tantas outras coisas.

Mas aquele espaço estava ficando pequeno para ele, e para mim também. Quando se é mãe, a gente sonho para o filho um castelo no arco-íris, e aquela casa antiga transformada em escola já não servia mais para o meu sonho. Então era hora de mudar, e mudar dói, deixa a gente sem chão, com medo, assusta.

 Procurei um novo lugar que não serviria a mais ninguém, somente ao meu pequeno, e arriscando de pôr todo uma história a perder, o convenci de que não iria perder os velhos amigos, mas iria fazer novos, somar. E lembrei-me dos queridos amigos que já haviam saído da escola e com quem ainda mantemos contato, não sem esforço, pois relacionamentos requerem cuidado e carinho, se valem a pena.  

A questão no final é essa, o que queremos? A comodidade, o conforto e a segurança do que nos é familiar, ou a aventura e a surpresa do novo? E porque não ambos?

Que venha a nova escola, os novos amigos e as novas memórias que iremos criar, sem que percamos nunca a doce lembrança daqueles que não mais estarão em nosso dia a dia, mas para sempre estarão em nossos corações. Sempre teremos o Aterro, e as festinhas...