Como tudo começou?

Enquanto revia vídeos e fotografias do meu pequeno de 4 anos (hoje com 7), que teima em crescer mais rápido do que eu consigo acompanhar, aproveitei para reler os diários que fiz desde a gravidez aos dias de hoje sobre cada momento (que julguei importante, essa ideia eu tive com a minha sogra que até hoje guarda escritos sobre fofurices do meu marido quando criança) registrado para que as trapaças da memória não as apagassem.


Foi neste caminho de reviver o passado que me descobri saudosa e percebi que precisava compartilhar as lembranças antes que esmaecessem sob a luz do dia a dia. Então, resolvi que postaria para amigos, familiares e outros curiosos do mundo pedaços desta minha vida, e ainda de lambuja deixar para o meu pimpolho histórias sobre ele mesmo para que um dia leia e sinta como foi esta jornada de chegar ao mundo e traçar seus próprios caminhos.


Espero que gostem e se emocionem um pouco, assim como eu ao revisitar minha história, e se entusiasmem para fazer uma visita à história de vocês.
Sejam bem vindos às "histórias sobre meu filho".

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Neologismos

O legal de termos amigos de diversas origens e países é sempre aprender um neologismo ou uma expressão diferente. 

Acho super interessante quando amigas francesas me perguntam se podem "ter" um copo de água, ou quando uma tia que mora há anos fora aportuguesa algumas palavras dizendo que vai se "aplicar" para uma oferta de uma nova casa. 

Mas a vencedora das paradas foi hoje quando o amigo do Miguel (de origem francesa) descreveu o objetivo de um novo jogo que está jogando: FUISONAR as vacas (???)
 

Tradução: unir duas vacas iguais para que se transformem em uma vaca grandona.
 

Uahahahahaha
 

A linguagem é o maior barato, como é bom a gente se conectar com as pessoas. 

Maravilhoso!

terça-feira, 4 de julho de 2017

A turma do Fogãozinho

Sempre me perguntam como aprendi a cozinhar. Eu não sei, por aí. Lembro que ganhei um livro de receitas de minha mãe quando era pequena, tinha uns 9 ou 10 anos. 

Terá sido isso?

Só sei que conversando com o Miguel  comentei do livro e de como tinha um monte de receitinhas que eu fazia sozinha sem ajuda da vovucha, e ele disse que queria um livro igual ao meu. 


E não é que encontrei uma reedição?! Taí.

Quando abri o livro relembrei de cada receita que eu fiz, e daquelas que tinham "verdinho" e  "temperos" que hoje eu amo e na época achava um horror. Mas do que mais lembro o sabor era da gemada.... nossa, como comemos gemada no café da manhã, eu e minha irmã...

Agora ele pediu para comprar os ingredientes para um delicioso pavê de chocolate, mas tem que ser com biscoito champanhe, exigência dele. E será que ele sabe o que é biscoito champanhe?


Tradição culinária de mãe pra filho.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

8 e alguma coisa

Hoje é o dia do nosso herdeiro... Miguel!!!! 

8 é o número do equilíbrio cósmico, do infinito, da justiça e da renovação, o favorito dele.


Cada dia mais amor, cada dia mais vida, cada dia mais alegria, cada dia mais paixão, cada dia mais brincadeiras, cada dia mais fofuras, cada dia único na estrada que trilhamos juntos...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Uma nova paixão?

No último final de semana enquanto eu estava fora trabalhando em um evento, pai e filho foram convidados para almoçar na casa de uns amigos. Lugar ideal para uma tarde de domingo, todos curtem comer e beber bem, havia área de lazer para as crianças e nossos filhos poderiam socializar de um lado, enquanto os pais bebericavam de outro.

Neste cenário aprazível de uma tarde de verão, começou um tititi entre as crianças. Eu não estava presente então estou recontando em terceira mão o ocorrido.

Num dado momento da brincadeira vem à tona, talvez precocemente, a conversa de quem acha quem bonito. É engraçado porque me lembro de nesta idade começar a ter algum interesse pelos meninos mas ainda de forma bastante ingênua. Beijos (numa rodinha de verdade ou consequência) e  insinuações surgiram por volta dos 10 anos.Resultado de imagem para meninos e meninas brincando 8 anosMiguel revela ao grupo de amigos, composto por três meninas e um menino (fora ele) que achava uma das meninas da roda bonita. A irmã dela o puxa pelo braço e leva para outra área e, à distância, o pai testemunha um ir e vir frenético entre a patota. É o frenesi da descoberta, da identificação com o grupo e da diferenciação entre meninos e meninas.

O que rolou não sabemos ao certo. A pergunta feita foi sobre sua eleita de até então, teria sido esquecida? Substituída? Uma nova paixão? Mas ele desconversou, entre risinhos tímidos e envergonhados. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa...

Será que houve alguma troca de afeição? Espero que não, que eles se permitam viver a ingenuidade da infância de forma plena, porque uma vez maculados não há volta, o véu do mundo se abre e o caminho de volta é lacrado, é daí pra frente. 

É uma delícia vê-los experimentando a vida. Para nós pais, espectadores, só nos resta apoiar e orientar, e aceitar que aquele bebezinho está, há muito, caminhando com as próprias pernas.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Rotulando o outro

Na escola uma das atividades é descrever as características de outras pessoas. O tão conhecido nós X o outro.
Miguel recebeu um desenho com duas crianças  e descreveu com seu olhar a cena que se passava - são amigos! A professora, incutida de suas intenções se porque não de seus preconceitos, o "corrigiu".  Um era alto e outro baixo, um era magro e o outro "gordinho".
Esta doeu no meu útero.
Primeiro porque ele viu algo além de descrições estereotipadas.
Segundo porque não há problema ser gordo ou magro, mas é necessário definir o parâmetro de comparação. Estas qualidades não existem intrinsecamente no ser humano, mas são adotados pelos outros (aqueles que não o sujeito de quem falamos) em relação a um ponto qualquer inicial que servirá de base de avaliação.
Eu por exemplo com 57kg sou GORDA em relação a Gisele Bunchen, e sou MAGRA em relação à Preta Gil. Mas isso não diz nada sobre mim, só serve para me identificar em meio a uma multidão de estereótipos.
Então continuamos a conversa...
Não existe feio ou bonito, na verdade escolhemos o que nos parece belo ou não. E Miguel completa:
- Ah, como no Modern Familý* quando a Alex diz que a arte é bela para uns e feia para outros.
- Isso aí, meu filho. - comenta o pai orgulhoso.
Mas será que ele entendeu?
 - Agora finge que não lembro do Cameron ( personagem da mesma serie) e descreve ele. - pede o pai cheio de intenções, uma vez que a personagem é GAY, HISTÉRICO e GORDO(sim usei vários estereótipos, mas a ideia é essa).
Resultado de imagem para modern family cameron mitchell - Ah não sei... - diz o Miguel já tentando imaginar a pegadinha por de trás do pedido.
 - OK, então me diz como eu sei quem e o Cameron e quem é o Mitchel?
 - Ah... o Mitchel é o de BARBA. - show, eu jamais o descreveria assim, pra mim ele é o RUIVO.
- E o Cameron?
Ele tentou não responder esta pergunta e saindo pela tangente disse:
 - O da cara ENGRAÇADA.
Sim o cara é gordo em relação aos demais do elenco, inclusive a questão do peso surge em diversos episódios, não há nada de errado nisso. 
A conversa continuou no ar, e também a nossa dificuldade em mostrar a diferença entre utilizar características de uma pessoa como ofensa ou como simples descrição. Num mundo onde o politicamente correto toma conta de tudo que pensamos, falar muitas vezes a verdade dos fatos, se torna um exercício escorregadio de fugir do abraço de uma Anaconda, você até se esquiva mas acaba sendo pego.
Meu filho, o que importa é que não há nada errado em ser gordo, feio, magro, baixo, alto, bonito, gay ou hétero desde que qualquer destas características não sejam utilizadas em tom depreciativo. 
O mais importante, e isso o Miguel sabia no início do exercício, é que eles eram amigos.

 

* Modern Family - seriado de TV americano que aponta uma nova configuração familiar onde há divórcios, casamento homossexual, casamento tradicional, casais com diferença de idades, estrangeiros, adoção de crianças, etc.

Evolução tecnológica ou doce de criança?

Vendo um filme policial em família, em determinada cena uma das personagens diz que não ainda não viu o disquete e não pode prender o bandido. Aí começa a conversa paralela:
Nenhum texto alternativo automático disponível.
- KKKK disquete, diz Marcelo.
- Miguel, você sabe o que é disquete? - pergunto eu com segundas intenções.
- Claro, né? Uma balinha.
- Uahahahahah - rimos em coro, e nem explicamos mais nada pra ele.
- Isso merece um post - Marcelo completa ainda com o riso no fundo da garganta.
 

E Miguel sem entender continua a ver o filme...
 

Nenhum texto alternativo automático disponível.É assim que percebemos que estamos ficando velhos, quando o auge da tecnologia da nossa infância é o nome de uma bala na infância do nosso filho.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sem reservas

Sentados vendo um filme romântico na TV Miguel sempre se acanha hora dos beijos. Claro que aproveitamos para emitir o tradicional "awwww" nestas cenas deixando-o ainda mais envergonhado.

Ele estava deitado em meu colo enquanto aquela história boba se desenrolava, até que o mocinho (ou ainda se fala galã?) beija a mocinha (ou seria heroína?). 

Então eu olho para ele e sem pestanejar digo: 

- AWWWWWW!

- Ah, para mamãe.  

- Ora, por que? Eu adoro beijar. 

- Por que?

- É o jeito que a gente de dizer que gosta de alguém, é gostoso. - Enquanto eu falava percebi sua movimentação, uma certa inquietude na pélvis. - O que está acontecendo aí, meu filho?

Ele começa a rir sem , e sem reservas me dá uma resposta.

- Ah eu sei lá. Às vezes quando eu vejo beijo assim meu pinto fica duro, acontece alguma coisa.

A mãe ri e fica com cara de tacho, ainda ponderando se teria sido o beijo ou a Catherine Zeta-Jones?

Seja lá o que for, meu filho está crescendo, literalmente!



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Babá? Não obrigado

No ônibus indo para a piscina, Miguel começa a planejar seu aniversário que será em 6 meses, acho que ele será de Planejamento Estratégico.

Bem, entre sonhos com personagens, guloseimas da Milou e amigos convidados surge uma preocupação - o primo que nasceu na véspera do seu aniversário e este ano completa 1 ano.

- Mamãe, eu  não quero que o D. vá na minha festa.

- Ué, por que não?  Você não gosta do seu primo?

- Gosto, ele é fofo. Mas.....  - esse "mas" é o que acaba com a gente. - Mas é melhor não.

- Miguel, você sabe que pode falar qualquer coisa para a mamãe, o que é?

 - Ele ainda é muito pequeno. E é muito chato quando a gente sai, e vai em restaurante ou na casa da vovó e ele vai também porque sempre tem aquela moça que fica com ele no colo. E a gente não pode brincar com ele. Ela não é da família, ela não tem que ir.

 - Mas ela ajuda a sua tia a tomar conta dele. Conta história e cuida dele.

 - Por isso eu não quero que ele vá! Se ele for sozinho tudo bem, mas com ela não.  Ela estraga tudo.

- Coitada, ela é boazinha. - eu disse tentando contemporizar, mas intimamente concordando - E as cuidadoras da bisavó?

- Elas são chatas também. Não gosto quando elas vão, mas atrapalham menos.

 - ???????????? Então converse com a sua tia e diga como você se sente.

 - Ah, não quero mais falar sobre este assunto.





sábado, 10 de dezembro de 2016

Gratidão e doação





Tempo de agradecer pelo que recebemos e compartilhar carinho. 

Todo ser humano merece ser amado e cuidado. 

Miguel doando brinquedos para as crianças da São Martinho. Ele ainda não sabe, não entende o porquê, mas está plantando a semente da compaixão e do amor.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Conversa de mãe e filho ou coaching?

7 anos é uma idade bastante desafiadora para uma criança, ela começa a deixar de ser dependente de seus pais, uma extensão de suas vontades, e começa a desenvolver mais autonomia e segurança para lidar com o mundo a sua volta e os desafios do crescimento.

Meu filho está nesta idade, e pede insistentemente para que confiemos nele para que possa explorar o mundo - deseja andar sozinho entre a praça e nossa casa, transitar pelo edifício desacompanhado e até mesmo ficar em casa enquanto resolvemos algum assunto na portaria. Entendo tudo isso como parte de seu desenvolvimento, e acredito que é muito saudável. Mas junto com a liberdade vem responsabilidades e bilhetinhos da professora na agenda sinalizando a necessidade de ajustar expectativas.
Esta semana não veio bilhete, mas foi feito um acordo verbal entre ele e a professora de que o próprio nos contaria sobre uma travessura em sala de aula. De fato nada demais, porem seu comportamento se deu num momento inadequado, atrapalhando os demais colegar, enfim a coisa certa na hora e lugar errados.

Ele me contou com detalhes, seguido de reticência por medo de ser recriminado. Ouvi tudo e comecei a questiona-lo o porque de ter agido daquela forma, sobre como ele se vê e gostaria de ser visto, e como seria se tivesse agido diferente. A conversa que iniciou com ele tentado acusar um colega pela bagunça, terminou com ele se auto responsabilizando por ter incitado a confusão e má postura. Ele me disse que estava com medo de me contar porque eu poderia brigar, e indaguei se não estava brigando, mas ele disse que não, que estávamos apenas conversando.
Resumo da ópera, ele só precisava ser ouvido e respeitado como o indivíduo que tanto proclama ser, autônomo e responsável por suas atitudes. Por si só tomou a decisão de assumir sua atitude e traçou um novo combinado comigo.
Sua meta é ser um bom líder dos colegas, então a partir de agora registra diariamente todas as ações positivas e negativas do dia, para que possa identificar os pontos de melhoria. E chamamos as "coisas ruins" de "coisas a melhorar", afinal como ele mesmo disse, "eu não bati em ninguém, né , mamãe?" (o que para ele seria uma ofensa grave sujeita a punição e castigo), tudo tem conserto.
De forma doce, com autoridade e afeto estabelecemos conexão e confiança mútua, meu filho se sentiu acolhido, amado e respeitado, e estando neste local seguro, pôde refletir sem julgamentos sobre suas ações e traçar sua nova estratégia.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Quer trocar uma bicicleta nova por uma lancheira velha?

Tenho o hábito de volta e meia perguntar ao miguel ou oura pessoa qualquer com quem esteja conversando, se gostariam de trocar uma coisa maneira por quinquilharia no melhor estilo da brincadeira do Sim/Não que eu via na TV quando criança

Como o Mi não achava muita graça, contei de onde vinha essa história e resolvi mostrar o vídeo da brincadeira do Sim e Não que passava na TV no programa do Bozo e Sílvio Santos.

Ri muito porque para ele era difícil e entender a existência deste tipo de programa e mais ainda uma pessoa, neste caso criança, trocar coisas boas por porcarias.

Ele disse que a criança era burra.

A verdade é que ele faz parte de uma geração cuja inocência está mais elástica e fluída, e que a graça e palhaçada de 30/40 anos atrás é tão bobo que quase não faz mais sentido.

Preciso me acostumar com a ideia de que tudo ocorre com ele num tempo (psicológico) diferente do que acontecia comigo. Isso não significa que ele está pulando fase ou deixando de curtir uma coisa ou outra, mas que o mundo é outros e os estímulos são diferentes.

Temos que estar mais próximos, guiando nossos pequenos, amando-os. Não que o que estão assando seja ruim mas é diferente e rápido, eles são pequenos e precisam de orientação, não regras fundamentalistas, mas de amor.

E aí, você quer trocar uma bicicleta nova por uma lancheira velha? Sim ou Não???? (Alguém ainda usa aquelas lancheiras com garrafinha térmica combinando?).

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A origem da tradição

Miguel tem origem judaica e não judaica. Desde seu nascimento eu e o pai nos preocupamos com os ritos e lendas que seriam passados a ele. Embora eu tenha admiração pela cultura judaica, acordamos que cada um ficaria encarregado de transmitir sua cultura, sua crença e assim vimos seguindo.


Acontece que na família do pai há um rompimento com caráter religioso da tradição e todas as festas e comemorações tendem a um lado histórico e laico. 

Ao longo dos anos em que compartilho estas datas com eles, percebi um processo de afastamento com a origem cultural. Claro que após o falecimento dos parentes mais idosos e antigos na tradição, é natural que ocorra um ajuste na forma de transmitir sua história. Mas o que presencio é triste pra mim, me parece um esfacelamento das relações com a história.

Posso estar sendo exagerada, mas eu vejo pelo lado do meu filho. A maior parte do que ele sabe aprendeu comigo e eu não sou judia. Se eu não entender posso passar alguma interpretação desviada, errada, sabe? Esta não deveria ser uma preocupação minha.

Há algum tempo atrás ele ouviu de uma pessoa próxima que só é judeu quem nasce de barriga judia, ele me perguntou se eu era judia e eu disse que não. Penso, logo existo. Minha mãe não é judia, logo eu tão pouco. Este assunto está encerrado para ele, mas não pra mim. Eu e meu marido ainda gostaríamos que ele tivesse contato com a história da origem da família, por outro lado não me cabe esta tarefa. E daí vai o sentimento de esfacelamento ao qual me referi.

Ainda me lembro das festas da minha infância onde histórias eram contadas, ou inventadas (não importa), mas eram aos poucos gravadas em mim. Faço com o Miguel a tradição de contar e reinventar histórias sobre as minhas crenças, e nestas, ele acredita e segue, e com certeza dará continuidade, mesmo que seja da forma e à maneira dele.

O importante é que os laços se mantenham, e que ele possa reconstruir os passos de sua ascendência, e construir sua história que é tão bonita. Espero que ainda tenhamos tempo de apresentar a ele opções de visão de mundo, de construção e percepção de realidades. Afina, ele não é filho de chocadeira, e a história da nossa origem é parte de quem somos e de quem queremos ser.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mamãe, você transa?

A gente de repente percebe que os filhos estão crescendo quando sem mais nem menos surgem aquelas perguntas embaraçosas nos momentos menos esperados.

E foi assim que ao colocar o Miguel para dormir e me deitar a seu lado, começamos com nossos bate papos "cabeça"sobre qualquer e coisa, e ele emendou:

- Mãe, você transa?

Faço então aquela cara de paisagem, sem reação nenhuma, enquanto no fundo do meu cérebro busco em meus arquivos mentais (em fração de segundos) todas as respostas possíveis e tento identificar ode onde surgiu o questionamento.

- Miguel, eu não sabia que você conhecia esta palavra. Onde você ouviu isso?

Enquanto ele já meio sem graça, meio a risinhos de canto de boca tentava me explicar, eu continuava com cara de caneca e aquela escavação cerebral, "onde ele ouviu isso?, será que ele viu a gente?" e outras tantas perguntas.

- Você não tá brigando, né?

- Claro que não, você pode falar tudo para a mamãe  - minha cabeça dava giros.

- Porque o papai não quis me responder.

- Ah, vai ver ele não sabia. Mas onde você ouviu esta palavra?- Nossa que resposta estúpida, dã!!!

- Eu vi naquele seu filme da maçã. - Para quem não conhece a maçã aparece na abertura da série de TV Desperate House Wives.

-Ah... - PQP! - E você sabe o que significa esta palavra? 

- Eu sei. É quando duas pessoas ficam assim (ele fez um gesto de pessoas se abraçando e beijando com a língua para fora, como me deu vontade  de rir). E eu nunca vi você fazer isso com o papai.

- E como você sabe que eu não faço?

- Porque eu espio - Fiquei sem ar. - Brincadeira, eu não espio não.

Ufa. Que papo louco. Vamos encerrar logo esta sessão de curiosidade e confiança.

- Só para você saber, eu transo sim.

- Mamãe, eu tô com sono. Boa noite.

E assim do jeito que começou, acabou aquela conversa sem novas indagações e questionamentos. Ele me deu um beijo, virou para o lado e dormiu. 

Eu fiquei ainda alguns minutos deitada a seu lado na cama pensando que preciso recolocar a senha no Netflix e parar de ver TV quando ele está na sala. Pra que antecipar o crescimento e as descobertas que vão acontecer inevitavelmente?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconstruindo Miguel

Quando trouxemos Miguel da maternidade e os avós deram no pé assim que o pirralho começou a chorar e mijar, percebemos a enrascada em que havíamos nos metido. Noites em claro, choro sem motivo (será?), peito o tempo todo, Renata com olhos perdidos no infinito, instintos materno e paterno o escambau. Amor incondicional? Pois sim... Ausência de diálogo, sem esse papo de que o olhar diz muito, diz tudo. A palavra e a fala é que nos faz humanos, elas nos permitam compartilhar sentimentos, a forma como experimentamos o mundo, como o interpretamos. Quem não se comunica se trumbica. Miguel não era humano? Não chegaria a tanto, só sei que, numa madrugada, Renata pediu arrego e ligou pra mãe implorando socorro porque não conseguia fazer Miguel parar de chorar e um vulto no andar de cima ficava espiando para tentar descobrir de onde vinha o barulho desesperante. Primeira e única vez, marcante pra sempre.

Aos poucos, Miguel foi se humanizando. É incrível quando, caminhando na rua, você ouve seu filho ler, pela primeira vez, o letreiro de uma loja ou lê a página de um livro infantil pego na biblioteca da escola. No início, balbuciava alguns sons parecidos com palavras, depois palavras curtas inteiras e, de uma hora para outra, desembestou a falar, falar, falar e, hoje, não me deixa assistir em paz o noticiário da televisão porque o silêncio é um crime. A alfabetização lhe permite andar com os próprios pés, ler o mundo de seu jeito em diálogo com quem o circunda. Seu vocabulário faria corar de vergonha muito marmanjo com curso superior (“papai, eu estava me referindo a...”). É quando começa a fase dos “porquês” e não adianta responder “porque sim” porque “porque sim” não é resposta. E tome discussão e conflito e argumentação e contra-argumentação e cara amarrada porque, no final das contas, quem manda são os pais e se os pais dizem que não pode, não pode. Simples assim. Saudades do choro, que o peito alheio amainava...

Sentados à frente da televisão, assistimos desalentados os desdobramentos do massacre ocorrido numa casa de espetáculos de Paris. O repórter fala de terroristas e Miguel pergunta o que são terroristas. Explicamos que são pessoas ruins que causam terror, medo, dor naqueles que pensam diferente deles, geralmente matando. Ele pergunta se teve gente que conseguiu fugir antes de ser morta ou se conseguir se esconder dos alucinados.  Explicar o significado de uma palavra não parece tão complicado, pior é ter de ajudar a entender imagens que vê.

Certa vez, Miguel pergunta por que todos os bandidos são pretos (ou teria dito “negros”?). Perguntamos de onde ele tirou essa ideia, e ele responde que é o que vê na televisão. Temos que explicar que nem todo bandido é preto (ou seria “negro”?), que tem muito bandido de pele clara que não aparece no noticiário ou que, mesmo aparecendo no noticiário, não é apresentado como bandido.Sua percepção de que o crime ou o abandono tem a cor negra se repete quando, através da janela do táxi, vê um menino de rua cheirando cola. Renata me contou que, em outra oportunidade, Miguel disse que não gostaria de ter nascido preto porque os pretos são invisíveis. Socialmente invisíveis, acrescentaria eu, sem tirar sua sagacidade e perspicácia. Ele percebeu que, apesar de existirem fisicamente, indivíduos de pele escura, sobretudo aqueles que vagam pelas ruas do Rio de Janeiro, não existem para quem passa por eles, não são reconhecidos como parte da mesma sociedade, como um “outro significativo”.

Nosso dever é desconstruir estas percepções, ajuda-lo a reinterpreta-las, combater estereótipos, preconceitos, fundamentalismos de qualquer tipo. Dá trabalho, mas, se não fizermos nada, quem o fará? 

OBS: Este post é do papai para o Miguel.

sábado, 25 de julho de 2015

O que é ser nerd?


Vovuha e Mi foram assistir ao filme Pixels, aquele sobre os videogames serem bandidos e o PacMan destruindo tudo. 

Na saída do cinema rememoramos vários lances do filme, Vovucha conta para ele como eram os jogos do Fliperama e do Atari no meu tempo de criança e fala que a tia, minha irmã, é nerd. Ofensa grave. 

- Não é não Vovucha. 

Começa então a onde de explicações. São vários motivos para a tia V. ser uma nerd, e ainda há mais, não é só ela, muita gente que ele conhece é nerd. Tio J. também, num grau menor. 

- E minha mãe? 

- Só um pouquinho. - responde a Vovucha.

Percebendo que ele considera ser nerd uma coisa ruim, ela começa com sua própria definição: os nerds são inteligentes, gostam de jogos eletrônicos e adoram super heróis. Ele se espanta. Então, lembra da coleção de quadrinhos da tia V., que ela deixou para ele. 

Fala de outra definição, dos caras que ficam o tempo todo no computador e só pensam em estudar. O taxista ri e concorda com essa ultima definição. Mi pergunta se o pai é nerd

-Ele é muito estudioso mas não é um nerd. 

No fim ele desabafa:

- Minha mãe não me deixa jogar. 

Depois de Pixels Miguel tem motivos de sobra para querer vivenciar a nerdice hereditária da tia, afinal os nerds são os heróis. Vai dar trabalho!


OBS: Texto baseado em relato da Vovucha.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Hora da Aventura

Está cada vez mais difícil acompanhar o que as crianças curtem, especialmente se trabalhamos o dia todo e o tempo que sobre para curtir os filhos é mesmo os finais de semana.

Volta e meia sento com o meu Miguel na frente da TV para vermos um filme ou um programa qualquer. Tenho medo de olhar para trás e perceber que esta fase passou. Ela é único, sinto que cada vez mais que ele se torna independente, menos necessita da nossa companhia. Nada que já não soubesse na teoria, mas viver na prática é outra história.

A gente senta para jogar jogos de tabuleiro, ler livro ou revistinha, fazemos o dever de casa juntos, e ainda há aquela hora do banho em que ele fica conversando sobre o dia. 

Estes momentos são realmente especiais. É quando entramos no mundo dos filhos e descobrimos uma lógica, uma percepção do mundo típica das crianças. Com suas próprias coerências e relações que, para mim, não têm nada de fantasioso. Ao contrário, eles vivem um mundo imaculado da incredulidade dos adultos. 

E foi assim que conheci o desenho mais bizarro que vi nos últimos tempos. Parece que depois de uma guerra apocalítica ou nuclear, sei lá, criou-se um mundo alternativo no melhor estilo "Lucy in the sky with diamonds".Mas não basta sentar do lado e ver o desenho, tem que acompanhar as explicações que ele faz questão de dar para nos contextualizar no seu universo.


Momento de explicação: 

- A Princesa Jujuba é feita de chiclete mas o nome dela é Jujuba, igual a mim, meu nome é Miguel e eu sou feito de humano.


-Mas o que é ser feito de humano? - pergunto.


-Ah, sei lá, né. Sou eu.


Aguardarei a sequência de seu raciocínio lógico no próximo episódio.


sábado, 11 de julho de 2015

Clue

Finalmente aderimos à TV paga após 10 anos de resistência. Nada político, simplesmente desnecessário, para quem passa o dia todo na rua. Mas fomos vencidos pela pressão do herdeiro e estamos em fase de testes.

Aproveitei para rever filmes e séries de que gosto muito. Foi quando redescobri o filme Clue (Os 7 Suspeitos) , baseado no jogo de tabuleiro Detetive. Comentei em casa e descobri que meu marido nuca tinha visto. Como havia dublagem em português, sentamos todos para ver.

No início Miguel ficou um pouco tenso, e amedrontado até perceber que se tratava de uma comédia, que tudo era mentira. Ele curtiu o filme e ficou falando dos personagens durante alguns dias.

Por coincidência, naquela mesma semana vimos um episódio do desenho Family Guy também baseado na história do jogo. E novamente ele viu e reconheceu o contexto, apesar dos  personagens serem outros.

Semanas antes de vermos o filme e o desenho, eu havia comprado o jogo para ele para guardar e e dar de dia das crianças. Depois de ter demonstrado interesse sobre a história, em especial porque teria associação a um jogo, resolvi antecipar o presente.

Resultado? Estou com uma criança de 6 anos viciada em jogar detetive.

Mas quem é o culpado?

Foi a mamãe, com o filme, na sala de estar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Que bom ter avós

Férias é uma época que deixa os pais enlouquecidos sem saber o que fazer com as crianças, lembro vagamente das minhas, acho que eu curtia mesmo era ficar em casa na frente  da TV, habito que mantenho até hoje nos finais da semana , por isso não me preocupo tanto se o Miguel quer ficar um pouco em casa na dele, tento respeitar isso.

Mas quando chegou a temporada de férias a primeira coisa que ele perguntou foi quando iria para casa de uma e de outra avó. Que sorte que tem de ter as avós e de curtir ficar com elas.  

Ficou uma semana com minha mãe e curtiu abeça, desta vez foi uma experiência diferente, que o levou ao meu passado e minha infância. Ela o levou para uns dias no mesmo condomínio em que íamos quando eu era criança. Imagino como esta experiência não foi, digamos, interessante, para ambos. Reviver certas aventuras e emoções de um passado que já ficou há muito para trás. Na hora de voltar, não queria partir.

Dias depois, chegou a hora dos outros avós, estes já estão um pouco mais cansados e agora tem outra neta para dividir as aventuras. Por isso, desta vez a temporada foi espaçada e mais curta. Porém, ainda assim Miguel pediu para ficar mais tempo, ele sente falta deles também, das brincadeiras e diversões. 

Ele já sabe que com cada um as regras e alegrias acontecem de forma diferentes e nem por isso deixa de curtir a companhia deles. Na hora de voltar, o avô morto ainda retardou o retorno em algumas horas a pedido do neto que queria aproveitar para ver a prima que iria ficar com os avós.

Que  bom ter avós e poder aproveitar dias repletos de diversão ao lado deles, em especial nas férias! São estas as lembranças que ele terá daqui há alguns anos para aquecer seu coração e alegrar sua memória de criança adormecida.