Como tudo começou?

Enquanto revia vídeos e fotografias do meu pequeno de 4 anos (hoje com 7), que teima em crescer mais rápido do que eu consigo acompanhar, aproveitei para reler os diários que fiz desde a gravidez aos dias de hoje sobre cada momento (que julguei importante, essa ideia eu tive com a minha sogra que até hoje guarda escritos sobre fofurices do meu marido quando criança) registrado para que as trapaças da memória não as apagassem.


Foi neste caminho de reviver o passado que me descobri saudosa e percebi que precisava compartilhar as lembranças antes que esmaecessem sob a luz do dia a dia. Então, resolvi que postaria para amigos, familiares e outros curiosos do mundo pedaços desta minha vida, e ainda de lambuja deixar para o meu pimpolho histórias sobre ele mesmo para que um dia leia e sinta como foi esta jornada de chegar ao mundo e traçar seus próprios caminhos.


Espero que gostem e se emocionem um pouco, assim como eu ao revisitar minha história, e se entusiasmem para fazer uma visita à história de vocês.
Sejam bem vindos às "histórias sobre meu filho".

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domingo, 30 de julho de 2017

Liberdade para ser

Miguel trouxe um pote de Nutella da casa da avó. Enquanto fazíamos um lanche ele pergunta:
- Mamãe, por que você nunca compra Nutella?
- Porque ela contém óleo de palma, lembra?
Silêncio reflexivo...
- Mamãe, eu tenho que ser igual a você?
- Claro que não! A mamãe te explica as coisas e conta aquilo em quê ela acredita e você faz as suas escolhas.
- Ah, que bom.
E assim começa a liberdade de escolha.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tal pai, tal filho

Miguel hoje.

- Vovucha, qual é mesmo a profissão dos meus pais?
- Seu pai é antropólogo e sua mãe cientista social que trabalha com projetos.
- Vou ser antropólogo igual ao meu pai!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Formatura do Violino

Apresentação de violino, encerramento do primeiro módulo, depois de 3 meses e meio de aula.

Ele veio com o dom da música e da alegria.


domingo, 11 de junho de 2017

Corrente do Bem

Como podemos ensinar a uma criança sobre valores e moral se não apresentarmos a ela o respeito? E o que é o respeito?

Segundo o dicionário, respeito é "consideração; sentimento que leva alguém a tratar outra pessoa com grande atenção, profunda deferência, consideração ou reverência". Entendo respeito como tratar alguém como eu mesma gostaria de ser tratada, sem deixar de considerar as diferenças individuais. Sendo assim, temos que olhar o outro como gostaríamos de ser olhados, e este outro pode ser qualquer pessoa a nossa volta. 

Vivemos num gueto de abastados, sem dor, sem ter que lutar por nossa sobrevivência. E ao nosso lado se dispõem famílias inteiras (desamparadas ou não, não importa) no chão da rua.

Como podemos tocar a vida das pessoas? Como podemos fazer diferença entre os que amamos e aqueles que nos são estranhos? E se cada pessoa do mundo fizer uma ação significativa, boa, e ao mesmo tempo difícil, para outra pessoa, como um presente?

Ridículo? Utópico? Ninguém disse que era para ser fácil.

Foi assim que nos vimos envolvidos em solidariedade anônima aqueles que precisam se sentir amados. Não se trata em dar para quem "precisa" mas reconhecer que existem outros fora de nós que também merecem atenção, carinho e amor, simplesmente pelo fato de existirem.

Seguindo estas ideias temos levado Miguel as ações (sociais) que praticamos para os outros. É importante que ele compreenda empiricamente o que se dar para alguém.
Então, fomos para a campanha inverno feliz ou qualquer coisa assim. A ideia era fazermos um lanche e doarmos comida e cobertores a pessoas em situação de rua (nós mesmos tivemos um tio que se tornou morador de rua por escolha, levado pelos vícios, mas esta é outra história).

Quando chegamos Miguel era a única criança e parecia meio deslocado. Então uma das voluntárias ofertou-lhe um saco de doces ganhos em uma festa infantil. Ele aceitou de bom grado, macaco gosta de banana? De repente ele abriu o saco de guloseimas e começou a dividir os regalos nos sacos de lanches que seriam distribuídos aos moradores de rua.

Claro que ele guardou um para si, mas todo o conteúdo ganho foi repartido com aqueles que não conhecia e que precisavam de um carinho a mais, como aquele que ele mesmo havia recebido. 
 
Se trata em fazer o bem para alguém que não espera e que não se conhece, se trata de estender o braço para uma outra pessoa que não a si mesmo, se trata de amar o próximo como a si mesmo. Se trata de fazer o bem pelo bem. 

Acho que a lição está sendo ensinada e apreendida... que assim seja!


 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sem reservas

Sentados vendo um filme romântico na TV Miguel sempre se acanha hora dos beijos. Claro que aproveitamos para emitir o tradicional "awwww" nestas cenas deixando-o ainda mais envergonhado.

Ele estava deitado em meu colo enquanto aquela história boba se desenrolava, até que o mocinho (ou ainda se fala galã?) beija a mocinha (ou seria heroína?). 

Então eu olho para ele e sem pestanejar digo: 

- AWWWWWW!

- Ah, para mamãe.  

- Ora, por que? Eu adoro beijar. 

- Por que?

- É o jeito que a gente de dizer que gosta de alguém, é gostoso. - Enquanto eu falava percebi sua movimentação, uma certa inquietude na pélvis. - O que está acontecendo aí, meu filho?

Ele começa a rir sem , e sem reservas me dá uma resposta.

- Ah eu sei lá. Às vezes quando eu vejo beijo assim meu pinto fica duro, acontece alguma coisa.

A mãe ri e fica com cara de tacho, ainda ponderando se teria sido o beijo ou a Catherine Zeta-Jones?

Seja lá o que for, meu filho está crescendo, literalmente!



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Percepções da nova escola


Miguel dá depoimento sobre a nova escola e suas impressões iniciais.



O primeiro dia de novo

Primeiro dia numa escola nova. 


Depois de receber a notícias da mudança com lágrimas nos olhos (ele está aprendendo a lidar com mudanças, esta é a lição que ele tem nesta vida), Miguel se resignou e aceitou os prós e contras da decisão. 

Ouviu alguns amigos, conhecidos e familiares que também frequentaram escola pública. Pesou os benefícios que teria, entre eles, atividades extras que combinamos que ele poderia fazer.

Acordou cedo - como se não bastasse a troca de escola, o horário também é novidade -, se aprontou rapidamente e bem disposto, me atrevo dizer que ele estava animado. 

Seguimos no caminho, mas não sem antes registrar o momento com descontração. Foto na posição do Bolt, e vamos em frente. 

Chegou ao prédio subindo as escadas aos saltos. Seria entusiamo? Seria medo? Seja lá o que foi, ele encarou de frente, cabeça erguida e ombros para trás.

No portão nos informaram que a professora dele está em capacitação (isso é bom, né?) e a turma iniciaria apenas na segunda. 

Puxa, rolou uma certa decepção. 

Mas o Diretor (ah, sim, o próprio Diretor da escola dava boas vindas aos alunos, enquanto o Inspetor organizava a entrada) propôs àqueles que quisessem ficar, providenciar atividades junto a outra turma. Detalhe uma turma mais velha que a dele. Teria sido isso um sinal? 

Perguntamos ao Miguel o que gostaria de fazer, ficar e se enturmar ou retornar somente na segunda. Ele quis ficar! Meus olhos encheram-se pela decisão, pela escolha que ele fez, sem pressão, com amor.

São estes momentos que importam.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Babá? Não obrigado

No ônibus indo para a piscina, Miguel começa a planejar seu aniversário que será em 6 meses, acho que ele será de Planejamento Estratégico.

Bem, entre sonhos com personagens, guloseimas da Milou e amigos convidados surge uma preocupação - o primo que nasceu na véspera do seu aniversário e este ano completa 1 ano.

- Mamãe, eu  não quero que o D. vá na minha festa.

- Ué, por que não?  Você não gosta do seu primo?

- Gosto, ele é fofo. Mas.....  - esse "mas" é o que acaba com a gente. - Mas é melhor não.

- Miguel, você sabe que pode falar qualquer coisa para a mamãe, o que é?

 - Ele ainda é muito pequeno. E é muito chato quando a gente sai, e vai em restaurante ou na casa da vovó e ele vai também porque sempre tem aquela moça que fica com ele no colo. E a gente não pode brincar com ele. Ela não é da família, ela não tem que ir.

 - Mas ela ajuda a sua tia a tomar conta dele. Conta história e cuida dele.

 - Por isso eu não quero que ele vá! Se ele for sozinho tudo bem, mas com ela não.  Ela estraga tudo.

- Coitada, ela é boazinha. - eu disse tentando contemporizar, mas intimamente concordando - E as cuidadoras da bisavó?

- Elas são chatas também. Não gosto quando elas vão, mas atrapalham menos.

 - ???????????? Então converse com a sua tia e diga como você se sente.

 - Ah, não quero mais falar sobre este assunto.





sábado, 10 de dezembro de 2016

Gratidão e doação





Tempo de agradecer pelo que recebemos e compartilhar carinho. 

Todo ser humano merece ser amado e cuidado. 

Miguel doando brinquedos para as crianças da São Martinho. Ele ainda não sabe, não entende o porquê, mas está plantando a semente da compaixão e do amor.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Conversa de mãe e filho ou coaching?

7 anos é uma idade bastante desafiadora para uma criança, ela começa a deixar de ser dependente de seus pais, uma extensão de suas vontades, e começa a desenvolver mais autonomia e segurança para lidar com o mundo a sua volta e os desafios do crescimento.

Meu filho está nesta idade, e pede insistentemente para que confiemos nele para que possa explorar o mundo - deseja andar sozinho entre a praça e nossa casa, transitar pelo edifício desacompanhado e até mesmo ficar em casa enquanto resolvemos algum assunto na portaria. Entendo tudo isso como parte de seu desenvolvimento, e acredito que é muito saudável. Mas junto com a liberdade vem responsabilidades e bilhetinhos da professora na agenda sinalizando a necessidade de ajustar expectativas.
Esta semana não veio bilhete, mas foi feito um acordo verbal entre ele e a professora de que o próprio nos contaria sobre uma travessura em sala de aula. De fato nada demais, porem seu comportamento se deu num momento inadequado, atrapalhando os demais colegar, enfim a coisa certa na hora e lugar errados.

Ele me contou com detalhes, seguido de reticência por medo de ser recriminado. Ouvi tudo e comecei a questiona-lo o porque de ter agido daquela forma, sobre como ele se vê e gostaria de ser visto, e como seria se tivesse agido diferente. A conversa que iniciou com ele tentado acusar um colega pela bagunça, terminou com ele se auto responsabilizando por ter incitado a confusão e má postura. Ele me disse que estava com medo de me contar porque eu poderia brigar, e indaguei se não estava brigando, mas ele disse que não, que estávamos apenas conversando.
Resumo da ópera, ele só precisava ser ouvido e respeitado como o indivíduo que tanto proclama ser, autônomo e responsável por suas atitudes. Por si só tomou a decisão de assumir sua atitude e traçou um novo combinado comigo.
Sua meta é ser um bom líder dos colegas, então a partir de agora registra diariamente todas as ações positivas e negativas do dia, para que possa identificar os pontos de melhoria. E chamamos as "coisas ruins" de "coisas a melhorar", afinal como ele mesmo disse, "eu não bati em ninguém, né , mamãe?" (o que para ele seria uma ofensa grave sujeita a punição e castigo), tudo tem conserto.
De forma doce, com autoridade e afeto estabelecemos conexão e confiança mútua, meu filho se sentiu acolhido, amado e respeitado, e estando neste local seguro, pôde refletir sem julgamentos sobre suas ações e traçar sua nova estratégia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desconstruindo Miguel

Quando trouxemos Miguel da maternidade e os avós deram no pé assim que o pirralho começou a chorar e mijar, percebemos a enrascada em que havíamos nos metido. Noites em claro, choro sem motivo (será?), peito o tempo todo, Renata com olhos perdidos no infinito, instintos materno e paterno o escambau. Amor incondicional? Pois sim... Ausência de diálogo, sem esse papo de que o olhar diz muito, diz tudo. A palavra e a fala é que nos faz humanos, elas nos permitam compartilhar sentimentos, a forma como experimentamos o mundo, como o interpretamos. Quem não se comunica se trumbica. Miguel não era humano? Não chegaria a tanto, só sei que, numa madrugada, Renata pediu arrego e ligou pra mãe implorando socorro porque não conseguia fazer Miguel parar de chorar e um vulto no andar de cima ficava espiando para tentar descobrir de onde vinha o barulho desesperante. Primeira e única vez, marcante pra sempre.

Aos poucos, Miguel foi se humanizando. É incrível quando, caminhando na rua, você ouve seu filho ler, pela primeira vez, o letreiro de uma loja ou lê a página de um livro infantil pego na biblioteca da escola. No início, balbuciava alguns sons parecidos com palavras, depois palavras curtas inteiras e, de uma hora para outra, desembestou a falar, falar, falar e, hoje, não me deixa assistir em paz o noticiário da televisão porque o silêncio é um crime. A alfabetização lhe permite andar com os próprios pés, ler o mundo de seu jeito em diálogo com quem o circunda. Seu vocabulário faria corar de vergonha muito marmanjo com curso superior (“papai, eu estava me referindo a...”). É quando começa a fase dos “porquês” e não adianta responder “porque sim” porque “porque sim” não é resposta. E tome discussão e conflito e argumentação e contra-argumentação e cara amarrada porque, no final das contas, quem manda são os pais e se os pais dizem que não pode, não pode. Simples assim. Saudades do choro, que o peito alheio amainava...

Sentados à frente da televisão, assistimos desalentados os desdobramentos do massacre ocorrido numa casa de espetáculos de Paris. O repórter fala de terroristas e Miguel pergunta o que são terroristas. Explicamos que são pessoas ruins que causam terror, medo, dor naqueles que pensam diferente deles, geralmente matando. Ele pergunta se teve gente que conseguiu fugir antes de ser morta ou se conseguir se esconder dos alucinados.  Explicar o significado de uma palavra não parece tão complicado, pior é ter de ajudar a entender imagens que vê.

Certa vez, Miguel pergunta por que todos os bandidos são pretos (ou teria dito “negros”?). Perguntamos de onde ele tirou essa ideia, e ele responde que é o que vê na televisão. Temos que explicar que nem todo bandido é preto (ou seria “negro”?), que tem muito bandido de pele clara que não aparece no noticiário ou que, mesmo aparecendo no noticiário, não é apresentado como bandido.Sua percepção de que o crime ou o abandono tem a cor negra se repete quando, através da janela do táxi, vê um menino de rua cheirando cola. Renata me contou que, em outra oportunidade, Miguel disse que não gostaria de ter nascido preto porque os pretos são invisíveis. Socialmente invisíveis, acrescentaria eu, sem tirar sua sagacidade e perspicácia. Ele percebeu que, apesar de existirem fisicamente, indivíduos de pele escura, sobretudo aqueles que vagam pelas ruas do Rio de Janeiro, não existem para quem passa por eles, não são reconhecidos como parte da mesma sociedade, como um “outro significativo”.

Nosso dever é desconstruir estas percepções, ajuda-lo a reinterpreta-las, combater estereótipos, preconceitos, fundamentalismos de qualquer tipo. Dá trabalho, mas, se não fizermos nada, quem o fará? 

OBS: Este post é do papai para o Miguel.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ler é como lamber as palavras

"Ler é como lamber as palavras"... li isso no Museu de Artes do Rio (MAR) ou mais ou menos isso. E é assim que o Miguel está se sentindo em seus primeiros dias de leitor.

Dia 10/11 foi a primeira vez em que leu um livro inteiro sozinho, sem ajuda. "Se eu fosse uma árvore", ok, não era nenhum tratado de filosofia, mas muita poesia e ora escrito na horizontal, ora na vertical, trazia as palavras enroscadas no desenho, fazendo da leitura um ato de amor.

Seu orgulho por ter alcançado mais esta conquista estava visível no brilho dos seus olhos e no toque firma de suas mãos ao virar com gentileza as páginas do livro.

Pedi que repetisse uma vez para que eu pudesse filmar e guardar esta memória, o que ele já fez um pouco ensacalhado, pela hora da noite e pelo fato de estar vendo desenho na TV (competição desleal), mas foi lá e leu algumas linhas para registro histórico. 


O pequeno vídeo postei no facebook e encaminhei para a família. Reproduzo abaixo os comentários relevantes:

"Muito legal !! Meus parabéns
Pra vcs !!! Bjs..."(tio J.)

"Que legal!! Mais um futuro come traça na família!! Bem-vindo a maravilha das artes escritas. Lindo!!!"(tia F.)

"Aê, Miguel! Esse meu sobrinho vai longe! Parabéns!!!!"(tia S.)

"Parabéns, lindão gostosão!"(vó S.)

"Muito legal, Renata. Esse é para guardar e mostrar para ele daqui a uns dez anos."(vô J.)

"Que alegria ver o Miguel lendo! É mágico!"(vó Scha.)

"Que lindo rapazinho! Parabéns pra ele!"(tiadinda A.)

"Que beleza, que emoção, aprender a ler as palavras! Eu ainda me lembro de quando aprendi as minhas primeiras! Estou muito orgulhosa do meu afilhadinho.(dinda M.)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pimentão, arroz e recheado



Há uns dois meses mais ou menos começamos a notar um maior interesse do Miguel nas letras. Durante todo o ano a escola vinha estimulando no processo de alfabetização e interesse na linguagem, de forma bem lúdica e leve, mas seu entusiasmo estava em outras áreas, digamos, mais físicas e esportivas.

Mas cerca de dois meses tudo mudou, ao ir comprar uma sfiha com o pai num restaurante árabe, após a saída da escola, ele arriscou “desembaralhar”as letras do cardápio escrito em letras graúdas próximo ao letreiro.

- PI-MEN- TAO, A-ROZ, RE-XE-A-DO.

E assim conseguiu, sozinho, ler suas primeiras palavras (pelo menos para nós), deixando pai puro orgulho e filho, uma felicidade só.  Quando cheguei em casa, os dois se alternavam em excitação para me contar  o ocorrido.

Esse foi só o primeiro passo no caminho desta descoberta que é o mundo da leitura. Ele anda, agora pela rua, lendo letreiros de ônibus e lojas com tamanha facilidade que é impressionante. Não sei se esta facilidade é dele, se é sucesso das professoras, ou nosso. Mas nos faz pensar se todo o analfabetismo do Brasil não poderia ser sanado facilmente em poucos meses com um pouco de incentivo e alegria.

Olhando para trás, penso no meu próprio processo de alfabetização, e volto constante a minha sala de aula e vejo com clareza as letras de fôrma (hoje chamadas de bastão) dispostas no quadro e consigo ler o que antes era tão difícil para mim. Confesso que o método atual de alfabetização fonético e não silábico me deixou apreensiva no início, mas funciona. 

Qualquer dia desses acordaremos pela manhã e ele estará sentado na sala lendo o jornal!


sábado, 11 de outubro de 2014

Cuidado com os animais

Outro dia, voltando para casa e conversando, Miguel surtou lembrando da história de dois muleques que maltrataram um cachorro dando molho de pimenta para ele beber. Foi uma reportagem que apareceu no jornal da TV há meses atrás.

Não sei porque ele foi lembrar disso, ele ficou arrasado e começou a chorar na rua com pena do bichinho.Na cabeça dele o cachorro havia morrido por causa da pimenta, sei lá. 

Fomos conversando para que ele se acalmasse, e no meio da conversa percebi que, apesar da tristeza pelo bichinho, havia também um conceito deturpado de que somente "bichinhos fofos"deveriam ser cuidados. Fui explicando que até uma minhoca deve ser respeitada, pois ela é um ser vivo, tem direito de estar na terá e tem uma função (aerar a terra para que possamos plantar os alimentos).  

Aos poucos ele foi se acalmando, e dando exemplo de outros animais "feios" que não deveriam ser maltratados.

Isso me fez pensar como é bom as crianças terem contato com animais desde cedo para desenvolverem o sentimento de compaixão e cuidado por outros seres vivos. 
 
Recomendo a todos os pais, mesmo um peixinho no aquário.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre macacos e pássaros


Hoje, pela manhã, eu e meu filho de cinco anos assistíamos ao noticiário na televisão. Na tela, aparece uma imagem em câmera lenta, permitindo aos espectadores decifrar o que uma torcedora da equipe Grêmio gritava em direção a um jogador da equipe do Santos. Meu filho perguntou o porquê da torcedora estar falando “devagar”, do que se tratava aquilo.

Por volta dos 43 minutos do segundo tempo, o jogo havia sido paralisado quando jogadores do Santos avisaram ao árbitro da partida, disputada em Porto Alegre, que o goleiro da equipe estava sendo vítima de racismo. Imagens da televisão flagraram uma torcedora (?) gritando a palavra “macaco”. Entrevistado, o goleiro Aranha afirmou que ouviu gritos de “negro fedido”, “seu preto” e “cambada de preto” e, após, um grupo de torcedores gremistas começou “a fazer barulho de macaco”. Inacreditavelmente, o juiz da partida mandou o jogo seguir.

Achei importante desenvolver o tema com meu filho. Expliquei que a torcedora (?) estava chamando um jogador adversário de “macaco” porque este jogador adversário tinha a pele escura, como os macacos, e que a intenção da torcedora (?) era dizer que o goleiro não era humano, e sim animal. E ser animal, neste caso, era pior do que ser humano. Disse a ele que isso é uma bobagem, que o jogador de pele escura não era pior do que ser humano coisíssima nenhuma, que a diferença na cor da pele não diz nada sobre a pessoa, se é legal ou chata (claro, tive que usar uma linguagem apropriada para uma criança de cinco anos).

Meu filho arremata meu argumento com o seguinte raciocínio: “ah, é que nem a gente que tem pele branca, que não é igual a um pássaro branquinho, não é?”. Vejam que a distinção que ele fez foi entre duas espécies da mesma cor, e não espécies de cor diferente. Ou seja, ele não diferenciou brancos e negros, e sim brancos humanos e brancos não humanos. Para ele, brancos e negros são gente, pássaros e macacos são animais.

O pequeno diálogo é a prova de que o racismo é aprendido, que o ódio não corre pelas veias, mas transmitido através da (des)educação, da desinformação e da desonestidade intelectual. Afinal, estudos recentes já demonstraram que, biologicamente, indivíduos com tons de pele muito distintas podem compartilhar mais de seu código genético do que indivíduos com tons de pele semelhantes ou “iguais” (como medir, não é mesmo?).  

Meu filho tem consciência da diferença da cor da pele que existe entre ele e seus colegas. Ele diz que a dele é “branca”, e a de um colega é “marrom”. Até aí, nada de mais, é apenas uma diferença que ele percebe objetivamente. A questão surge quando esta diferença objetiva adquire um significado, passa a representar algo que vai além da simples pigmentação; passa a simbolizar, por exemplo, de um lado, maior capacidade intelectual e, do outro, a estupidez próxima ao animalesco.


O mesmo acontece com os “olhos diferentes” que ele identifica nos imigrantes e descendentes de asiáticos (outra categoria construída que não dá conta das distinções entre povos e culturas daquele continente), apenas para chamar a minha atenção de uma conversa que ele teve no parquinho perto de casa, quando se aproximou dele e de um amigo um adulto de “olhos diferentes” e seu filho. São diferentes, não inferiores. Quem sabe compartilham gostos em comum? Ele vai descobrir aos poucos.

Meu filho provou como a educação, desde cedo, é importante para a construção de um mundo melhor, onde o respeito à diferença é um valor absoluto e a convivência é estimulada.

Ganhei meu dia. 

Comentário: Esse texto foi escrito pelo papai. Adoro ver o Miguel pelos olhos do pai, então compartilho com vocês. Também pode ser visto em : http://espacoacademico.wordpress.com/2014/08/30/sobre-macacos-e-passaros/

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Eu queria ser um gatinho



Miguel acordou pela manhã chorando e resmungando que não queria voltar para escola hoje. Queria ficar em casa comigo, porque eu ainda estou de férias. Louvável.

Às 7:30 da manhã estávamos sentados no sofá da sala conversando sobre os porquês de ir à escola: 


  1. Na escola não pode ficar brincando o tempo inteiro. É verdade na escola tem uma hora para a brincadeira e uma hora para a sala de aula. Mas na sala de aula tem jogo de tabuleiro? Tem. Na sala de aula de invenção de histórias? Tem. Na sala de aula de passa anel? Tem. Na sala de aula tem forca? Tem. Na sala de aula tem adivinhação? Tem. E isso tudo é o quê, não são um monte de brincadeiras? (Ele deu uma risadinha sem graça e disse que isso não valia, ele queria dizer que tinha pouco pátio). Ah...  Mas tem brincadeira na escola.  
  2. Ele não queria aprender matemática. Enquanto eu batia palmas de forma cadenciada, falava como a matemática está presente em tudo na nossa vida, em especial em algo de que ele gosta muito, a música. E que se não acredita em mim que pergunte ao professor de música. E que a matemática também serve para nos ensinar a contar o dinheiro do cofrinho que ele está juntando para ir à Disney (arranquei um sorriso dele).
  3.  E o mais importante. Uma coisa que ele vive me perguntando como eu sei e ele não. A escola é importante para nos ensinar a ler! Como ele vai aprender a ler os livros e gibis dele sem ir à escola? A professora tem feito um monte de brincadeiras com letras e logo ele vai estar fazendo as junções sozinho, sem nem perceber. Mas para isso precisa ir para a escola.


Passada a crise inicial, começamos o dia. E o dia passou bem até a hora do banho, quando Miguel disse que queria ser um gatinho.

Perguntei por que ele queria ser um gatinho, e ele respondeu que era porque ninguém brigava com os gatinhos. Eu disse que não era bem assim, que eu brigava com todos os nossos gatinhos, principalmente quando eles faziam bagunça. E que achava ele parecido com o Leopoldo (nosso filhote).

Miguel começou a chorar copiosamente, de uma forma que eu nunca vi antes, me assustou. Quanto mais eu tentava consola-lo, mais ele chorava e se jogava no chão do banheiro. Levou um tempo para eu entender.

Ele queria ser um gatinho porque eles são fofinhos e ninguém briga com eles, quando eu disse que brigava com os gatos e o comparei com o mais levado ele achou que eu estava dizendo que ele era levado. Foi aí que eu entendi o quanto sua autoestima está abalada, provavelmente pelas idas à coordenação da escola, na tentativa de se adaptar a um novo conjunto de regras. 

Tentei lembra-lo de como é um menino bom e doce, e de que todos erramos, mas somos feitos de muitos mais acertos que erros. Lembrei da história do ponto preto na folha branca. Pra que só olhar para o ponto preto, e o resto da folha branca?
Por último disse que sabia que tinha alguma coisa dentro dele que ele não sabia nomear, dizer o que era, e que estava incomodando e que toda vez que esse sentimento aparecesse era para ele vir no meu colo e me abraçar. Neste momento ele me abraçou e beijou, e começou a se acalmar.

domingo, 29 de junho de 2014

Independência Futebol Clube

Sempre faço de tudo para que o Miguel seja independente e tenha suas vontades, mesmo  que não combinem com as minhas.

Outro dia o levei ao shopping pela primeira vez para fazer compras, normalmente eu compro o que quero e tá beleza. Mas desta vez queria um momento nosso, ele precisava de tênis e achei que seria legal. 

Passamos em frente a uma vitrine e ele logo criticou os modelos expostos e começou a descrever mais ou menos  o que ele queria, algo parecido com uma chuteira. Talvez o clima Copa do Mundo, ou simplesmente o fato de ser menino, não importa. 

Tracei um roteiro de lojas na  minha cabeça e fui em frente. Por sorte logo na segunda encontramos algo neste estilo. De cara ele apanhou um par de tênis de cor laranja, peguei o mesmo modelo em azul, achando que combinaria mais e ele aceitou experimentar os dois. Depois de calçá-los me perguntou se poderia levar os dois, eu disse que não dava porque o pé iria crescer e ele acabaria perdendo o tênis, então ele escolheu o laranja. Eu disse que preferia o outro, mas ele sustentou sua decisão e já queria sair com sapato novo na mesma hora. Ainda teve um momento em que ele ainda pensou em me agradar com o outro, mas disse que ele te que escolher o que gostava mais.E não é que ficou maneiro?!

Hoje Miguel levantou, saiu da sala e foi até a cozinha. Ouvimos uma série de pequenos barulhos - armário se abrindo,gaveta, geladeira, pote de vidro. De repente ele volta para a sala com seu prato de café da manhã:um pratinho com três biscoitos maisena cada um com um fio de doce de leite. Vou correndo na cozinha ver o "desastre" que sobrou e não encontro nada. Inclusive o doce de leite está de volta guardado na geladeira.

 Após o café, pedi a ele que trocasse de roupa e arrumasse a cama. Depois de tanta desenvoltura no preparo culinário do desjejum, eu deveria ter gravado ele praguejando enquanto arrumava a cama, e se amaldiçoando porque tem 5 anos e não era mais um bebezinho chato que pelo menos todo mundo faz tudo para eles. Vai entender os geminianos.


Isso é a fase dos 5 anos de crianças independentes!  E a gente tem que acompanhar ou se perde no caminho.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Experiência x experimentação

Esta semana recebemos uma notificação da escola sobre o mal comportamento do Miguel. Ele pegu um copo urinou dentro, misturou sabão, pasta de dentes e  jogou no chão do refeitório. 

Lastimável! 

Quando questionado, pela professora, sobre o porquê disso, respondeu que queria fazer uma experiência. Foi conduzido à coordenação, para reforçar o entendimento que pra tudo há hora e  lugar e daí a tal anotação.

Mal cheguei em casa, ele mesmo veio me contar, de cabeça baixa e ombros caídos, que havia uma nova anotação na agenda (já tínhamos recebido outra dois dias antes). Ele me contou com detalhes, antes mesmo que eu pudesse ler a versão da escola, com uma riqueza de detalhes e uma seqüência lógica extremamente desproporcional para uma criança de quase 5 anos de idade.

O que me chamou atenção em seu relato, além do fato dele ter vindo me contar de livre vontade, livre de preconceitos ou temores das sanções que pudesse vir a sofrer, foi o motivador do caso. 

Uma das cuidadoras/auxiliares mostrou a ele uma experiência feita por um aluno de uma turma mais velha, acredito que feia em uma aula de ciências, onde uma bexiga e uma luva cirúrgica simulavam o funcionamento do coração e pulmão. Era uma experiência super interessante com apelo visual incrível e que traziam ainda um conteúdo, um saber.

Na mesma hora, sua mente começou a funcionar e algo dentro dele disse que ele também tinha que fazer uma "experiência". Ele utilizou os recursos que encontrou pela frente e foi embora, deixou-se levar pelo afã da curiosidade, pela inquietação do ser humano, pela necessidade de experimentação.

Concordo com a escola, cuja  lição para ele, é que cada coisa tem sua hora e lugar para acontecer, que fazer xixi no copo e jogar no chão não é uma coisa legal. Por outro lado, não posso deixar de me impressionar com a forma como a mente do Miguel funciona, e  com os anseios de seu coração. 

Conclusão, estou devendo a ele realizar algumas experiências em casa, fizemos um bolo juntos para que eu pudesse explicar o processo da fermentação, mas tem que ser outra coisa mais palpável. Vou ver se pendo em algo ou então compro um kit de química.